Karla Correia
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva incorpora hoje o papel de articulador político do Palácio do Planalto na tentativa de evitar surpresas desagradáveis ao governo na votação em segundo turno da CPMF na Câmara e afastar o risco de perder a arrecadação do tributo no primeiro trimestre de 2008 - algo em torno de R$ 10 bilhões. Em jantar no Palácio da Alvorada com líderes e vice-líderes dos 11 partidos aliados, Lula tentará debelar os vários incêndios que surgiram na base governista na Câmara no segundo semestre e, ouvindo diretamente as queixas da coligação, afagar as legendas de apoio ao governo na Casa para manter o placar favorável na votação prevista para o próximo dia 9.
No Planalto, a avaliação é a de que por mais que o governo tenha sido vitorioso na votação de primeiro turno da CPMF, ao derrubar emendas que poderiam desfigurar a proposição que prorroga o tributo até 2011, ainda existem riscos suficientes de naufrágio da proposta em segundo turno.
- O caminho para a aprovação está pavimentado - acredita o líder do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PTB-PE) - O problema é que, se você não cuidar, qualquer pavimento, por melhor que seja, vai começar a apresentar buracos.
O governo já demonstrou que tem votos suficientes para aprovar a prorrogação da CPMF. Ainda assim, não está seguro quanto ao estado de espírito de sua bancada e, escaldado pelas demonstrações de desagrado tanto na Câmara quanto no Senado, ocorridas na semana passada, teme traições de última hora. Os parlamentares rebeldes estão concentrados nos aliados PMDB e PR. A distribuição de cargos no governo está, como sempre, na base dos conflitos entre as legendas e o Planalto. Para começar, o PMDB quer de volta o Ministério de Minas e Energia e está disposto a negociar outros nomes que não o de Silas Rondeau, afilhado político do senador José Sarney (PMDB-AP) para tirar a pasta das mãos do ministro Nelson Hubner, ligado à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do ministério, Márcio Zimmermann, é o nome indicado pelo PMDB para a pasta, caso o governo avalie que o posicionamento do Ministério Público sobre Rondeau ainda deva demorar.
Já o PR está irritado com a demora, no Senado, da aprovação do nome de Luiz Antônio Pagot para a direção do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit). A fatura do partido do vice-presidente José Alencar inclui ainda a Diretoria Financeira e Administrativa da Transpetro e cargos no comando da Agência Nacional de Petróleo (ANP).
- É importante que o presidente ouça pessoalmente os partidos, e não fique apenas sendo municiado por relatos de terceiros sobre o que acontece no Congresso - opina o vice-líder do PSB na Câmara Beto Albuquerque (RS).
Consciente do pesado estado de ânimos entre os aliados, Lula pediu ao ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, para convidar os líderes aliados ao jantar que oferece hoje no Palácio da Alvorada. Lula tem pela frente a tarefa de desatar os nós que atravancam o relacionamento do governo com sua bancada de apoio de forma a garantir fidelidade não só no dia de votação, mas em cada sessão até a apreciação da CPMF em segundo turno. Segundo o regimento da Câmara, todas as sessões, de segunda a sexta-feira, terão que ter quorum. Além disso, até o dia 9, cerca de cinco medidas provisórias devem trancar a pauta da Casa.
Fonte: Jornal do Brasil
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