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23/07/2013 

Livro: Documento sobre Aleijadinho ganha edição luxuosa

Importante documento sobre Aleijadinho (e, de certa forma, o Modernismo) ganha edição luxuosa

Existem diversas formas para contar a história de um povo. Um bom começo é trazer à tona as suas memórias, podendo ser pela recuperação de documentos escritos ou registros orais, a fim de que sirvam como vaga-lumes para iluminar, um pouco mais, o infinito túnel da história. A reedição do livro “Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mas conhecido pelo apelido de Aleijadinho”, fruto de trabalho da Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é uma demonstração de que para a história avançar, é preciso esteja atenta, também, ao passado.

Com apresentação gráfica impecável, a capa faz alusão à pedra-sabão, uma das matérias-primas essenciais para a construção da obra de Aleijadinho, cujo livro reproduz sua primeira biografia, assinada pelo professor, promotor e deputado estadual provincial mineiro Rodrigo José Ferreira Bretas, escrito em 1858. No documento, que passou vários anos na obscuridade, Bretas conta o sofrimentos do artista para executar sua obra. O livro tem 133 páginas, sendo dividido em três partes.No prefácio “Aleijadinho e os poetas modernistas (1927-1930)”, assinado pelo escritor, ensaísta e curador mineiro Silviano Santiago, mais do que apresentar a obra, o estudioso coloca Aleijadinho no contexto das discussões sobre a formação da cultura brasileira. Fala da importância de Antônio Lisboa, filho de escrava com português, artista mestiço, portanto, representa bem a miscigenação não apenas do povo, mas também da arte brasileira. Ressalta o valor do artista para a arte produzida no Brasil, principalmente no século XVIII. Aleijadinho sintetiza essa mistura cultural brasileira, ao incorporar heranças lusa, africana e indígena a sua obra.

A segunda parte do livro consiste na reprodução do texto de Rodrigo José Ferreira Bretas publicado, inicialmente, em um jornal de Ouro Preto. Vindo, em seguida, o caderno de fotografias das principais obras do artista mineiro, feitas pelo fotógrafo Jomar Bragança. São fotografias que retratam o talento do escultor, responsável pela evolução não apenas do nome das artes produzidas em Minas, no século XVIII, mas ao inovar, inventando um barroco mestiço, brasileiro, tendo no santuário de Congonhas do Campo uma síntese de suas criações.

O resgate da primeira biografia de Aleijadinho (1730-1814), escultor, entalhador e arquiteto, nascido em Ouro Preto, é uma forma de preservar a memória de um dos mais representativos artistas do Brasil colônia. Além de ajudar a entender sobre a formação da arte brasileira, contribuindo para afastar o sentimento de “ignorância coletiva”, como ressalta Silviano Santiago, ao se referir à falta de informação em torno do artista. De forma sutil, o livro expressa esse sentimento, na seguinte inscrição: “O Aleijadinho não teve estrangeiro que ...lhe desse gênio e as vozes brasileiras não fazem milagres em casa”, escreve Mário de Andrade, em 30 de maio de 1930, no texto “Aleijadinho”.

Em 1963, o escritor francês Germain Bazin publica o livro “Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil”, fazendo jus à arte do mestiço de Ouro Preto, que segundo prefácio de Santiago, “reinventa em Vila Rica o ateliê de artista do Renascimento...” Antes do livro de Bazin, na década de 1920, Mário de Andrade escreve o ensaio “O Aleijadinho e sua posição nacional”. No trabalho, “não só cita por duas vezes a biografia de Rodrigo Bretas, como incorpora muitas das observações críticas que vimos relatando. Nele também toma posse de outras veredas críticas e as explora”.

Alguns anos antes, Mário de Andrade, que na fase “nacionalista pragmática”, quando escreve Macunaíma, pede, em uma carta, ao também poeta Carlos Drummond de Andrade, que procure “um livro ou folheto sobre o Aleijadinho dum fulano chamado Rodrigo José Ferreira Bretas, aparecido talvez por 1858”. Mário de Andrade desconhecia o documento. Não se sabe qual era o seu interesse no biografia de Aleijadinho, já que não faz referência em Macunaíma. No prefácio, Santiago coloca Aleijadinho em contexto sociocultural, mostrando as reações dos defensores do movimento neocolonial em arquitetura e os partidários da arquitetura moderna, representada pelo jovem Lúcio Costa, que foi beber na fonte do arquiteto e urbanista francês Le Corbusier. “A nadar em outras e diferentes águas institucionais e teóricas, natural que Mário desconheça em 1927 a contribuição de Rodrigo Bretas”, pontua o ensaísta mineiro.

Em carta datada de 7 de fevereiro de 1927, o poeta mineiro conta que foi à Biblioteca Municipal “cavar o tal livro ou folheto de Rodrigo Bretas sobre Aleijadinho”. Ao buscar informações, descobre que não se tratava de livro, mas sim, de um artigo publicado num jornal de Ouro Preto, em 1858 e transcrito nas Efemérides mineiras, de Xavier da Veiga” e estava esgotado. O jeito foi copiar a lápis o artigo e enviar ao amigo paulista. Após lançar um pouco de luz sobre o documento, o livro traz, na íntegra, o famoso artigo de Rodrigo José Ferreira Bretas.

A narrativa de Bretas não deixa dúvidas sobre a data de nascimento de Francisco Lisboa, que afirma ter nascido em 29 de agosto de 1730, no “arrabalde desta cidade que se denomina o Bom Sucesso, pertencente à freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias”. Era filho natural de Manuel Francisco da Costa Lisboa, “distinto arquiteto português, teve por mãe uma africana, ou crioula, de nome Isabel, e escrava do mesmo Lisboa, que a libertou por ocasião de fazê-lo batizar”.

O texto é personalizado, traz aspectos pitorescos da vida do biografado, além de análises subjetivas do autor, demonstrando, claramente, a escrita biográfica de uma época. Pela descrição, Aleijadinho era uma figura estranha, sobretudo após a doença degenerativa que contraiu, por volta de 1777. Afirma que o escultor se encontra “sepultado na matriz de Antônio Dias”, em Ouro Preto. Completa a obra, caderno com fotografias de um dos mais representativos artistas do Brasil colônia.


LIVRO
Traços biográficos do finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho
Rodrigo José Ferreira Bretas
Editora UFMG
2013, 135 páginas
R$ 60,00

Fonte: Diário do Nordeste
Última atualização: 23/07/2013 às 10:06:00
 
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