Divulgadas as vencedoras do concurso Março das Mulheres

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Durante o mês de março, convidamos bancários e bancárias associados(as) a nos enviar histórias de protagonismo de mulheres que os inspiram em suas vidas profissionais e pessoais.

Recebemos muitas histórias emocionantes e motivadoras, que foram submetidas a uma banca avaliadora que escolheu as três melhores histórias. Participaram da banca, a escritora e professora do IFCE, Efigênia Alves, a assistente social da UFC e coordenadora do Ponto de Cultura Ao Pé da Letra, Richelly Barbosa e o professor da UECE, Epitácio Macário.

O resultado foi divulgado durante o evento do Março das Mulheres, na quinta-feira, dia 27/3, na sede do Sindicato. Quem não pôde estar presente ao evento, receberá o prêmio posteriormente.

Confira os nomes das vencedoras:

1º lugar: Francisca Liduína Almeida Cabral (BEC) – ganhou um Kindle Paperwhite (16Gb)

2º lugar: Vânia Maria Magalhães Rodrigues (CEF) – ganhou uma Alexa EcoShow 5 com SmartDisplay

3º lugar: Maria da Anunciação da Silva (CEF) – ganhou uma Alexa EcoDot 5ª Geração

Seguem abaixo os textos das vencedoras:

1º LUGAR: FRANCISCA LIDUINA ALMEIDA CABRAL (BANCO DO ESTADO DO CEARÁ)

A mensagem da vida é o que fica. Minha mãe tinha anjo no nome. Ângela vem do grego ángelos (ἄγγελος) e significa mensageira, porque cabe aos anjos serem mensageiros de Deus. Assim como as mães, mensageiras que são da boa-nova de que o amor se mostra é nas ações do dia a dia, na peleja diária, na grandeza da luta por uma vida digna e honesta. Mamãe me mostrou seu amor por sua prole, como ela dizia ao nos apresentar às pessoas, sobretudo por sua garra e determinação de nos fazer ter uma vida melhor. Um episódio dessa luta cotidiana gravou-se em mim de modo particular. Papai ficou uns meses fora. Foi tentar a vida em Brasília, que as coisas não estavam muito fáceis por aqui. Ficou D. Anginha, como a chamava quem lhe queria bem, na Fortaleza da década de 60, com cinco filhos pra criar, uma bodega sem estoque e algumas costuras. Morávamos no Quilômetro 8, hoje Couto Fernandes, pertinho do trilho do trem. Mamãe esperou o retorno de papai, mas não passivamente, não esperando dele a resolução financeira dos problemas que tínhamos. Entre as costuras e os cuidados de dona de casa e mãe, determinou-se a fazer negócio, sozinha, com o Seu Manoel, português dono da antiga Padaria Confiança, que ficava ali na esquina da Av. João Pessoa com a Rua Ceará. — Seu Manoel, o senhor me vende em consignação mercadoria pra eu colocar na minha bodega? O negócio não tá fácil e são cinco crianças. Não se preocupe que o senhor não vai ter prejuízo, não. Seu Manoel fez jus ao nome de sua padaria e fez negócio com mamãe, que, apesar de ter estudado por apenas um ano dos 96 que viveu, soube gerir a bodega de forma a garantir rotatividade na clientela e reabastecimento constante de mercadoria, honrando, claro, o compromisso assumido com Seu Manoel. Quando papai retornou, encontrou nosso comerciozinho melhor do que quando saiu. D. Anginha fizera tudo sozinha – por amor à nossa vida. A mesma firmeza de caráter a guiou em inúmeras outras circunstâncias adversas na vida, e mamãe sempre viveu de um modo que não só nos inspirou a uma vida de virtude como ainda hoje inspira. Minha mãe tinha rosa no nome. Era Ângela Rosa, que desabrochou no mundo dos anjos há quase sete anos, mas permanece em plena floração no meu peito, porque a vida é o que fica depois que ela tem fim.

2º LUGAR: VANIA MARIA MAGALHAES RODRIGUES (CAIXA ECONÔMICA FEDERAL)

Treze de maio de 1988, a cidade se enfeitara, comemorava-se cem anos da Abolição dos Escravos. No hospital, contudo, as paredes brancas, frias doíam em mim. Mãezinha, como gostava de ser chamada, jazia sem vida, naquele leito daquele hospital naquela manhã. O cheiro bom de lavanda em seus cabelos me transportou a um tempo remoto de minha infância e a encontrei. Tudo começara cedo para ela: esposa, aos 14 anos, mãe, aos 15, e avó, bem jovem também. Vaidosa, preferia ser chamada “mãezinha”, não queria ouvir “vovó”, sem imaginar que, naquele momento, em si, nascia a avó. Mãezinha que se fazia criança, outra vez, nas minhas brincadeiras infantis. De seus dedos habilidosos, saiam bonecas de pano e peças de crochê para elas, dos seus olhos, o brilho de estrelas cintilantes. Mãezinha que sorria meus sorrisos, e seu sorriso fácil e sua gargalhada livre lembrava o murmúrio de canções soltas ao vento. Mãezinha que chorava minhas dores, e a sua lágrima semelhava o orvalho nas noites e madrugadas em que não mais se podia ou não se queria ver as estrelas. Nos momentos difíceis de nossas vidas, mãezinha era o acolhimento, que vinha com leveza e com alegria. De repente, mãezinha adolescente e jovem, segredos compartilhados, sem julgamentos, sem exposição de experiências próprias, e sem verdades prontas e acabadas. Mãezinha faceira, brincos nas orelhas, batom nos lábios e colorido em seus vestidos de primavera florida, com bolsos onde iriam parar alguns coringas nas nossas partidas de jogos de baralho. Um ser único escolhido, talvez, para ser de minha família, um anjo bom no mundo, uma fada madrinha a materializar desejos do bolo e do guaraná, sempre presentes em sua mesa. Mais tarde, acolheu os bisnetos, não mais com a mesma vitalidade, porém, sempre, com o mesmo amor. Protagonismos existem com seus feitos memoráveis e eu, que nem era a neta favorita dela, já que o melhor pedaço de frango nos almoços tardios dos domingos, jamais foi para mim, mesmo assim, se internalizou seu protagonismo em mim. E, naquele momento, percebi o quão difícil era sua partida e senti o doloroso que seria voltar ao local onde tudo a lembrava. E foi, naquele instante, que senti que ela estaria em mim sempre. Ela, a minha Mãezinha, que me aceitou completa, com erros e imperfeições, que preferiu ser doação, ser ninho e acolheu. Mãezinha, amor tão puro, de profissão “avó”, uma protagonista, não apenas na minha história, mas na de todos os seus netos e bisnetos.

3º LUGAR: MARIA DA ANUNCIAÇÃO DA SILVA (CAIXA ECONÔMICA FEDERAL)

Mulher: um símbolo de luta e de superação Benedita Cardoso da Silva, minha mãe, nasceu em 2 de dezembro de 1936, no interior de Cocal (PI), e pertencia a uma família com seus pais e 15 irmãos. Diante de uma realidade pobre e rural, o trabalho no campo era imprescindível à sobrevivência familiar – isto é, a garantia de alimentação e de renda -, e, devido à carência de recursos e de infraestrutura, a educação configurava-se praticamente inexistente. Todos os seus irmãos não sabiam ler nem escrever, entretanto esse histórico não a impediu de lutar pela sua instrução. Nesse panorama nordestino e interiorano, obstáculos urgiam ser superados com o fito de transformar sua vida por meio das oportunidades proporcionadas pelo conhecimento. Sob o sol escaldante do sertão e sobre a terra árida e seca, ao canto do sabiá e à vista das exuberantes árvores de Juá, a jovem Benedita caminhava diariamente uma légua para chegar à escola, enfrentando não apenas a falta de transporte, mas também a ausência de suporte alimentício básico nessa dura rotina. Apesar do cenário desfavorável aos estudos, ela conseguiu conquistar o objetivo almejado em uma magnitude ainda mais significativa, uma vez que aprendeu Português e Matemática. Devido à ampliação de suas perspectivas, a moça passou a requisitar a Medicina como sua futura profissão. Infelizmente, por causa do baixo poder aquisitivo e da ausência de faculdades na região, não lhe foi permitido cursar a área dos seus sonhos. Não obstante, Benedita buscou uma profissão na qual pudesse aplicar seus aprendizados, tornando-se, assim, em uma exímia comerciante. Como fruto de sua luta e de sua superação, após seu casamento, desenvolveu uma ampla rede de negócios, adquirindo diversas terras e sendo pioneira nos comércios de panificação e de sorveteria, recursos antes inacessíveis à população cocalense. Em seu casamento, teve 8 filhos e, como uma mãe consciente da importância da educação no desenvolvimento pessoal e profissional, sempre incentivou e arcou financeiramente a formação acadêmica de todos os seus filhos. Portanto, Benedita representa a força da mulher em revolucionar sua realidade, estando à frente do seu tempo e se permitindo ser um exemplo de superação e de conquista a todos ao seu redor. Essa mulher, além de mãe, de esposa e de comerciante, era bondosa, virtuosa e sábia, consciente de que todos os seus esforços não foram em vão, visto que mudaram toda a sua trajetória e a de seus descendentes.

MENÇÃO HONROSA: Liana Pinho Barros (Banco do Nordeste do Brasil – BNB)

(Apesar do regulamento só prever três colocações, a banca considerou essa história como digna de Menção Honrosa, “pela qualidade e força do texto”)

A mulher que mais me inspira é minha avó, Geuza Leitão. Ela sempre foi um símbolo de empoderamento feminino para mim. Casou-se ainda adolescente, em um casamento arranjado com um homem bem mais velho que ela. Teve sete filhos com ele, sendo um deles meu pai. Com os filhos ainda pequenos, e em uma época em que uma mulher desquitada era malvista pela sociedade, ela teve a coragem de se separar do meu avô! Uma vez separada, decidiu retomar os estudos. Formou-se em Direito, com especialização em Direito Público. Passou no concurso público para Procuradora Autárquica do Ipec, hoje Instituto de Saúde dos Servidores do Estado do Ceará – Issec, onde trabalhou até o ano de 2017, data de sua aposentadoria. Mas foi na defesa dos direitos dos animais que vovó encontrou sua missão de vida! Ela foi uma das pioneiras na causa animal no estado do Ceará. Desde 1992, representou no Ceará a Organização Não Governamental União Internacional Protetora dos Animais – Uipa. Também foi conselheira e presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB-CE. Geuza foi advogada, ativista, professora, palestrante e escritora. Tudo isso em uma época em que a mulher era, geralmente, limitada ao papel de esposa, dona de casa e mãe. Ela não só não aceitou que lhe calassem a voz, como quis ser a voz dos sem voz! Infelizmente, vovó faleceu em 2023. Mas, no que depender de mim, sua devotada neta, seu nome e seu legado jamais serão esquecidos.

Fonte: Bancários CE

1 COMENTÁRIO

  1. Estou encantada com a qualidade da escrita das três selecionadas. Parabéns a todas e parabéns principalmente ao sindicato dos Bancários do Ceará pela belíssima iniciativa.

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