Trabalhadores estão no centro do debate para um projeto de país melhor, avaliam José Dirceu e Juvandia Moreira

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Depois da aprovação do regimento interno, teve início os trabalhos do 34º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil, na manhã desta quarta-feira (5/6). A mesa inicial, intitulada “Os desafios da sociedade e dos trabalhadores”, contou com a participação de José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil no primeiro Governo Lula, e Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e também coordenadora do Comando Nacional dos Bancários.

Dirceu iniciou sua fala expressando gratidão à categoria. “Durante todas as dificuldades que passei nos últimos anos, sempre tive o apoio dos bancários, inclusive nos lançamentos dos meus livros, realizados país afora. Por isso, considero um privilégio estar falando com vocês, ainda mais para discutir minha maior paixão, que é o Brasil.”

O ex-ministro destacou a preocupação com o atual cenário mundial. “As disputas são entre a extrema direita e a direita, fruto do fim do estado de bem estar social e da desindustrialização que a globalização promoveu. Mas, junto com isso, vem uma crise moral enorme, com ataques a pautas de defesa dos direitos humanos, das mulheres, da igualdade e da democracia. No Brasil, essa mudança veio como resultado de uma reação dos setores conservadores na sociedade, que culminou na eleição de Bolsonaro, em 2018, e se ligou ao fundamentalismo religioso.”

Para ele, o Brasil é um dos poucos países com segurança alimentar e energia, em sua maior parte, limpa. “O que nós não temos é soberania política, independência. Nós já ganhamos cinco eleições para presidência da república, algo inédito, nas condições que temos. Não ganhamos a sexta, porque Lula estava preso. E as classes trabalhadoras passaram por automação, golpe da Dilma, prisão do Lula, concentração de renda, reforma trabalhista, precarização. A classe trabalhadora brasileira é muito jovem, 100 anos. E, durante esse tempo, metade viveu na ditadura”, lembrou. “Falo isso para termos consciência da importância do Brasil. Nossa maior tragédia são nossas elites, sem noção da nação, do interesse nacional. É um escândalo, uma vergonha, quando qualquer país capitalista está cuidando de si. Nós importamos quase 95% dos produtos fármacos, fora grande parte dos fertilizantes, somos totalmente dependentes. Temos um déficit de 50 bilhões de dólares na balança comercial. Esse é o desafio que o presidente Lula está enfrentando na sua cadeira.”

Sobre as perspectivas econômicas, Dirceu mencionou os rumos traçados pelo governo, incluindo a Nova Indústria Brasil, o PAC e a transição ecológica. “Se o país cresce, todos os problemas vão melhorando”, garantiu. “Como o Brasil pode crescer? Primeiro temos bancos públicos, 50% dos créditos e dos ativos estão e são por meio deles. Por outro lado, temos como desafio crédito caro [por conta da Selic alta, imposta pelo Banco Central], que é a grande tragédia nossa e a concentração de renda: 20 milhões não têm 1% da renda nacional”, completou.

De acordo com ele, a geopolítica segue mudando e o Brasil precisa de um governo forte e unidade interna, principalmente para combater a pobreza e desigualdade, e impedir que o Brasil vire alvo da cobiça internacional. “Como formar um pacto no país com os setores da indústria? Atrair e construir uma aliança política com esses setores e mudar a correlação de forças no país para eleger um Congresso com uma bancada aliada com esse viés de desenvolvimento. Mas estamos no rumo certo, apesar dos muitos problemas. Desonerar a produção, desconcentrar a renda e enfrentar o problema da reindustrialização e aproveitar o momento da transição ambiental, e, com isso, mudar o agro, para proteger as águas e as florestas. Tem uma batalha nessa questão da transição, em relação ao agro, porque não é possível deixar de produzir”, pontuou.

O ex-ministro defendeu ainda a necessidade de mudanças na estrutura tributária e de juros para promover o crescimento nacional “que dê ao Brasil o que ele merece” e destacou a importância de eleger um parlamento progressista com projetos de crescimento para o país.

Dirceu concluiu sua mensagem com um apelo ao otimismo e à união política para promover reformas sociais e políticas que deixem um legado para as próximas gerações. “Precisamos reformar nossas entidades sindicais e partidárias, repensar o mundo e o Brasil, fazer uma releitura de nós mesmos”, concluiu.

A presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, destacou que as falas trazidas por José Dirceu colaboram para a formação do movimento sindical bancário, incluindo as explicações do modo como a extrema-direita tem avançado e o impacto desse fenômeno na redução da participação do Estado na constituição de políticas sociais e econômicas. “Nós não temos uma elite que pense um projeto de país, pelo contrário, junto com a imprensa, essa elite continua com o discurso de estado mínimo, pauta extremamente atrasada que, se fosse completamente seguida, não seríamos a 8ª economia mundial e não teríamos o presidente Lula eleito”, completou.

Pautas do movimento sindical

Juvandia destacou que o movimento sindical bancário e as centrais sindicais levantam bandeiras de grande importância para o desenvolvimento do país, como um todo, que vão além das reivindicações específicas das categorias, como aumento salarial e condições de trabalho. “Temos grande preocupação sobre correção de forças [políticas] na sociedade, para que tenhamos um projeto de país. Para isso, precisamos mudar o Parlamento, que hoje tem metade do orçamento nas mãos. Como pensar na reindustrialização, em soluções para o emprego, por exemplo, se este Parlamento não tem compromisso com um projeto de país que defendemos?”, observou.

Outra pauta do movimento, destacada por ela, é a atualização dos sindicatos. “Precisamos mudar e repensar nossos modelos. Os sindicatos foram fortemente atacados na reforma trabalhista, que enfraqueceu a negociação coletiva”, relembrou.

A presidenta da Contraf-CUT também ressaltou a mobilização necessária para criar leis que protejam os trabalhadores por aplicativos, lembrando que, hoje, no Brasil, existem em torno de 4,5 milhões de pessoas nessa condição, sem direito à previdência e sem organização coletiva. “No debate que estamos tendo no Congresso, estamos sendo atacados justamente em pontos que são os melhores da lei que queremos para os trabalhadores por aplicativo. Ou seja, eles hiperpolitizam o discurso para despolitizar”, completou Juvandia, ao destacar, em seguida, que apenas 23% dos trabalhadores por aplicativo, atualmente, pagam previdência.

Juvandia também ressaltou que a Campanha Nacional debate as eleições deste ano. “Porque é importante elegermos prefeitos, vereadores e vereadoras alinhados com a nossa pauta, com o nosso projeto de país”, completou. “Seguindo esta mesma lógica, os trabalhadores estão se preparando para as eleições de 2026, para que mais parlamentares, também comprometidos com as pautas de desenvolvimento do país, com redução das desigualdades e pleno emprego, ocupem mais cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado”, finalizou.

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