VIII Fórum da Visibilidade Negra: debate sobre o mercado de trabalho mostra exclusão da população negra

53

Durante a tarde desta quinta-feira, 6/11, os participantes do VIII Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro debateram a participação de negros e negras no mercado de trabalho, políticas de inclusão e combate ao racismo.

A economista e técnica da Subseção do Dieese na Contraf-CUT, Vivian Machado, trouxe dados que demonstram a desigualdade econômica, social e racial no Brasil. Ela destacou que homens e mulheres negros têm mais disponibilidade no mercado de trabalho, mas isso não se reflete na empregabilidade dessas pessoas, que são empurrados para os empregos informais, onde se registram altos índices de pessoas negras. Ela enfatizou ainda que 53% das mulheres negras ganham menos que homens brancos. No sistema financeiro, a remuneração média dos bancários é cerca de 39% maior que das bancárias. “Em 2024, as mulheres ocupavam 46, 9% dos cargos de liderança, enquanto, para as pessoas negras, esse número cai para 24,2% que compõem a categoria, mas nos cargos de lideranças essas pessoas quase não existem. “Políticas públicas e afirmativas ajudam a promover a inclusão. É assim que podemos combater essas desigualdades.

Com relação à segurança, o Anuário da Violência evidencia que em qualquer critério da violência, as maiores vítimas são sempre pessoas negras. “Feminicídios, homicídios, estupro, latrocínio, ações policiais, aliás, até mesmo entre os policiais mortos, a maioria eram negros”, destacou. E completa: “não é só cumprir o programa de cotas, não é só contratar, é preciso dar oportunidades e quanto à segurança, o Estado tem de proteger a todos, sem distinção de cor”, finaliza.

Já a Secretária Nacional de Combate ao Racismo na CUT, Maria Júlia Nogueira, destacou a resistência negra. “Desde a abolição, os negros são excluídos e empurrados para a favela, preteridos na hora de arranjar emprego. Na época da abolição foram preteridos pelos imigrantes e até hoje, os negros vivem essa realidade, sendo empurrados para a informalidade, os subempregos ou serviços terceirizados. Não é questão de capacidade intelectual, mas de oportunidade. É o racismo estrutural que existe até hoje, empurrando o negro para a base da pirâmide social, como revelam os dados do Dieese”, ressaltou.

Por fim, o professor e diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia, Jerônimo Júnior, fez um histórico sobre a luta do povo negro e mostrou que o negro sempre foi excluído. Era uma questão de política de Estado. “A luta do povo negro sempre foi marcada pela resistência. No passado existiam até leis que nos proibiam de ter acesso a educação, à ocupação etc. Sempre nos empurraram para a exclusão” concluiu.

Empoderamento negro e a luta antirracista

Encerrando o primeiro dia do VIII Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, no dia 6/11, na sede do Sindicato dos Bancários do Ceará, o ator Déo Garcez, a Secretária executiva da Igualdade Racial do Estado do Ceará, Mártir Silva e a vereadora de Fortaleza, Adriana Almeida falaram sobre as formas de resistência do povo negro.

Déo Garcez falou da cultura como resistência a partir de sua experiência pessoal, apaixonado pela arte desde criança e essa sempre foi sua forma de resistência. Há mais de 10 anos, ele interpreta o Luiz Gama, na peça Luiz Gama: uma voz pela liberdade. “O Brasil tem uma dívida histórica com o povo negro. Não tínhamos direito à educação, à terra, ao emprego. Todas as leis que surgiram depois da abolição eram para nos criminalizar. Essa dívida é histórica. A política de cotas tem nos proporcionado oportunidades, mas isso é só o começo”, relata.

Ele valoriza a educação do povo negro. “Sempre acreditei que a partir da educação, da arte e da cultura eu iria modificar a minha vida, a minha realidade, sempre resistindo”, completa. Déo falou ainda sobre a emoção de interpretar Luiz Gama no teatro: “Luiz Gama é um herói negro apagado dos livros de História. Eles apagaram nossos heróis de propósito para não nos deixar sermos protagonistas da história do nosso país”, finalizou.

A Secretária Executiva da Igualdade Racial no Estado do Ceará, a advogada Mártir Silva, falou sobre o Direito como forma de resistência. Ela ressaltou que desde o início da escravidão no Brasil, os africanos eram vistos como objetos de compra e venda, não como pessoas. “E até hoje, nós lutamos pela nossa humanidade”, disse. “O racismo está estruturado na nossa sociedade porque até hoje, a distribuição de oportunidades é negada ao povo negro”, avaliou.

Mártir ressaltou que apenas a partir de 2003, durante o 1º governo Lula, foi criada a primeira secretaria de Igualdade Racial com status de Ministério. Somente em 2010 surgiu o Estatuto da Igualdade Racial, uma conquista no campo do Direito para promover a igualdade e gerar oportunidades. “A luta é árdua e desde então estamos lutando para avançar nas leis e instrumentos para tentar minimizar as desigualdades e combater o racismo estrutural”, disse. Ela aproveitou para parabenizar a categoria bancária por sempre lutar pela igualdade no sistema financeiro. “Vocês são muito corajosos, pois o sistema financeiro é um dos mais poderosos do país, mesmo assim, a categoria bancária enfrenta com coragem e determinação, buscando mudar e transformar a realidade do negro dentro dos bancos”, finalizou.

Por fim, a vereador Adriana Almeida (PT/CE) falou sobre o parlamento como forma de resistência. Ela foi a primeira vereadora negra a assumir um mandato na Câmara Municipal de Fortaleza. Adriana lembrou sobre a importância de se ter uma bancada negra na Constituinte de 1987/88, pois foi nesse momento que a pauta negra começou a tomar visibilidade nacional. “Quando nos organizamos dentro do Parlamento, conseguimos aprovar leis e criar política públicas de inclusão e reparação, um exemplo disso é a criminalização do racismo e a política de cotas”, avaliou.

Ela citou também a Rede Nacional de Parlamentares Negros, que promove jornadas antirracistas, procurando combater o racismo e promover a inclusão. “Nós precisamos de formação política para entender em que lugar estamos e construirmos uma sociedade mais igualitária. Tudo o que se fizer ainda vai ser pouco para reparar tudo o que se fez contra o negro em nossa sociedade”, finalizou a vereadora.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here