A dor da perda por tempo indeterminado

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“A gente ficou desesperado”. A afirmação é de Edilaldo Silveira, padrasto de Maria Lidiane, de 10 anos, que, durante quatro dias, esteve desaparecida. A menina, que, como de costume, foi para o colégio sozinha, não mais voltou e não deu satisfação para a família de onde iria. Angustiados, os pais procuraram todos os meios possíveis para reencontrar a filha.


Eles fizeram um B.O na delegacia, foram ao Creas (Centro de Referência Especial de Assistência Social) – órgão ligado a STDS (Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social) – registrar o desaparecimento, até que a exibição da foto de Maria Lidiane num programa de televisão levou a menina a entrar em contato com a mãe por telefone no dia 29/10. Ela estava na casa de uma amiga de escola, queria passar alguns dias por lá e voltar em breve. “Foi bom demais”, afirmou Edilaldo ao tentar descrever a sensação de ter a enteada de volta ao lar após quatro dias de intensa procura, em que até o árduo emprego de pedreiro ficou de lado.


Assim como Lidiane, várias crianças e adolescentes desaparecem semanalmente no Ceará. A maioria é encontrada, mas o destino de alguns permanece uma incógnita. Desde o início da atuação do Creas, em 2005, foram registrados 630 desaparecimentos, com 520 localizações, sendo seis óbitos. A supervisora do Centro, Regiana Nogueira, não sabe ao certo os motivos das mortes, mas especula que a maioria é consequência de vingança por tráfico de drogas.


Segundo a supervisora, grande parte dos desaparecimentos é fruto de conflitos familiares, em que os filhos fogem de casa e “fazem questão de se esconder”. A maioria deles ocorre em lares de baixa renda, mas a natureza desses casos não impede que os mais abastados também sejam atingidos. Desentendimentos com os pais por diversas razões, dentre elas a busca pela liberdade, levam os filhos a procurar outra vida, mas boa parte retorna por conta própria, assim como voltam a fugir. Outra razão para desaparecimentos é o rapto familiar, que é ocasionado por briga pela guarda das crianças.


A essas famílias, o Creas disponibiliza um serviço de procura, que conta com a parceria de diversas instituições que divulgam as fotos das crianças em diferentes meios, desde a mídia televisiva até a internet (www.desaparecidos.mj.gov.br). Mas é o trabalho conjunto com a Coelce que vem rendendo bons frutos. Mensalmente a empresa publica dois retratos de desaparecidos nas contas de luz, atingindo um grande público, que tem resultado no reconhecimento de muitos rostos.


Para efetuar o registro do desaparecimento, é necessário que a família se dirija ao Creas com uma foto recente do adolescente ou da criança, dê detalhes do caso e descreva-o fisicamente, dando destaque para características peculiares, como um sinal ou uma tatuagem. “A partir de então começamos a divulgar”, destaca a supervisora Regiana Nogueira. Ainda de acordo com ela, dependendo do motivo do desaparecimento, após ser encontrada, “a criança passa por um período de coalizão com a família para se evitar uma nova fuga”.


Caso reconheça alguma criança desaparecida, ligue: 0800.285.1407/ 3101.2737. O Creas localiza-se à Rua Tabelião Fabião, 114, Presidente Kennedy (por trás do North Shopping).