A Paz e o desafio de desarmamento

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Esta semana comemora-se o aniversário da fundação da ONU (24 de outubro) é internacionalmente dedicada ao desarmamento, problema que vai desde a violência nossa de cada dia, alimentada por milhões de armas pessoais que, no mundo inteiro, produzem mortes e sofrimentos para tantas pessoas, como também o desafio imenso das ogivas nucleares. Conforme a ONU, hoje, no mundo ainda existem mais de 26 mil mísseis nucleares prontos para ser acionados e detonar este pequeno planeta em questão de segundos.


No Brasil, há quatro anos, os grupos e pessoas que trabalham pela paz perderam o referendo sobre a proibição de porte de armas por parte da população. Assim mesmo o governo tem feito constantes campanhas pelo desarmamento da população. Mesmo em meio à violência que, no País tem aumentado, as pesquisas revelam que o desarmamento tem colaborado para diminuir o número de assassinatos e acidentes fatais no dia a dia dos brasileiros.


Assim como os terremotos têm epicentro e são provocados por alguma falha tectônica no mais profundo da terra, também a violência tem razões circunstanciais. Mas se fundamenta em uma cultura de desamor que só pode ser vencida por uma educação para a paz e amorosidade nas relações humanas interpessoais, assim como no exercício da gestão social da sociedade. O desarmamento nuclear ou de armas pessoais não se fará sem que se espalhe pelo mundo o desarmamento moral e cultural. É urgente substituir a cultura da concorrência e da competição pela realidade da colaboração e da convivência afetuosa.


Infelizmente, neste campo, a maioria das religiões falhou e tem uma profunda dívida moral com a humanidade. O próprio Cristianismo se deixou cooptar por impérios conquistadores da Europa e mais recentemente da América do Norte. No passado, não só promoveu guerras e violências, como gerou uma civilização de tipo guerreira e conquistadora. Embora sempre tenha pregado o amor ao próximo, as Igrejas conviviam tranquilamente com as desigualdades sociais e as discriminações de vários tipos. Até hoje, não vêem nenhuma contradição em pregar o amor e a paz, enquanto seguem mergulhadas em uma cultura de valorização do poder.


No primeiro capítulo da carta aos romanos, São Paulo diz que existe um modo de crer que não leva à justiça. É como se a fé não tivesse conseqüências para uma vida mais justa. Para Paulo, esta forma de fé não corresponde ao projeto divino. Pode ser religiosa, mas não é espiritual. O plano de Deus para o mundo se revela na ressurreição de Jesus. Significa a retomada de uma aliança divina que renova a criação. Como Deus soprou sobre Adão para insuflar nele o espírito de vida, Jesus ressuscitado sopra sobre os discípulos e sobre o universo, dando a todos e a tudo o seu Espírito que torna as pessoas irmãs umas das outras, no caminho da paz e refaz no mundo uma nova criação de beleza e amor universal.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor