A Privatização da Alegria do Povo

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Durante alguns dias estaremos todos comentando a final do campeonato cearense e outros jogos e jogadas que mexem com a maioria de nós. A maioria dos homens, pelo menos…


Há uma catarse coletiva. Há em torno do futebol emoções variadas: descontraídas, tensas, carregadas, mais leves… Assim o futebol invade mentes e corações de cearenses e brasileiros de todas as cores. É bom que assim o seja. E é bom também que reflitamos, com serenidade, sobre isto – o futebol – que preenche um bom tempo de todos nós.


A torcida cearense ainda enche, com relativa facilidade, o estádio Presidente Vargas e mesmo o Castelão. Esta torcida – de todos os times – está a merecer um tratamento mais digno. Ela vai ver jogos de Fortaleza e Ceará, para ficar somente nestes dois, e praticamente não encontra ídolos locais. Os jogadores trocam de time como se trocassem de marca de supermercado. Os jovens talentos são levados para outros estados e países sem que passem pelo crivo da torcida local. Enfim e apesar de tudo isso, os estádios enchem…


Imagine-se agora uma política agressiva de fortalecimento das escolinhas dos times todos. Imagine-se um grupo empresarial com visão de médio prazo investindo nestas escolinhas abertas e receptivas para os moradores dos bairros e favelas de Fortaleza. Imaginem-se os jogadores nascendo nas escolinhas do Ceará, do Fortaleza e do Ferroviário, sendo conhecidos pelo público local e se tornando ídolos em sua terra. Imagine-se a inclusão social, o vínculo afetivo do jogador com sua terra. E imagine-se ainda uma fórmula de fortalecimento do clube aonde os jogadores não fossem hoje escravos dos empresários do futebol…


Não devemos ter saudades do passado do futebol. Boas lembranças, sim. O futebol já foi amadoristicamente proporcionador de grandes alegrias para o povo. E pode hoje ser um grande instrumento de inclusão social, desde que seus fundamentos de organização estejam à altura da generosidade popular.


A visão sectária de que o futebol é um elemento extremamente alienante desconhece a cultura do povo brasileiro em uma de suas mais autênticas manifestações. Para que esta manifestação de amor ao futebol se eleve é necessário que a política invada também o campo do futebol, no mais das vezes, entregue aos direitistas de plantão.