A República dos Empreiteiros virou o Império dos Bancos

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No começo deste outubro, o banco espanhol Santander assumiu o controle do Banco Real, de um grupo privado nacional, que no passado foi adquirido pelo Banco ABN-Amro, holandês. Os jornais registram que, em valores de ativos, a nova “filial” do Santander no Brasil superaria o Banco Itaú e a Caixa Econômica Federal, sendo superada apenas pelo Banco do Brasil e pelo Bradesco. Contudo, em matéria de depósitos, o banco espanhol superaria o Bradesco. Também neste mês, grupos espanhóis conquistaram a concessão de seis dos sete trechos rodoviários colocados em licitação. Pouco depois, alguns jornais noticiaram que o BNDES iria financiar 70% dos investimentos que estes grupos comprometeriam para recuperar a rodovia e explorá-la empresarialmente.


Nos anos 50, o Brasil havia optado por integrar o mercado interno com base em uma rede rodoviária planejada pelo Plano Rodoviário Nacional. Não apenas o Brasil dispunha de imensos potenciais aproveitamentos, como também, sendo escasso o petróleo, havia intenção de uma matriz energética predominantemente renovável. Houve quem dissesse que, a partir dessa década e nos 20 e tantos anos subseqüentes, o Brasil seria a República dos Empreiteiros. Surgiram gigantes empresariais nacionais que dominaram a tecnologia de instalação de infra-estrutura nos trópicos. Obviamente havia uma simbiose entre a construção pesada e a ordem política, porém era virtuosa, pois o negócio era o crescimento da economia e o Brasil crescia a 7% ao ano.


O neoliberalismo acabou com aquela República. Desvinculou os impostos, desmantelou as equipes de projetamento do longo prazo, retirou o desenvolvimento da pauta política. Optou pelo Império dos Banqueiros. Nos últimos 25 anos o Brasil tem uma irrisória taxa de crescimento na América do Sul, apenas superior ao Haiti. Por outro lado, os bancos que operam no Brasil são campeões de lucratividade e crescem aceleradamente. É isto que levou o Santander a optar por uma tomada do espaço econômico brasileiro. O Banco Central é o pilar deste festival bancário. Sustenta uma escandalosa taxa de juros primária. Já anunciou que não continuará reduzindo a taxa.


Em resumo, no futuro, todos os anos o Brasil remeterá dividendos para a Espanha, quer pelas concessionárias de serviços de infra-estrutura, quer para o banco Santander. Simultaneamente, os brasileiros pagarão juros escandalosos quando se endividarem com os bancos, e o País como um todo seguirá pagando impostos – inclusive a CPMF prorrogada – não para construir infra-estrutura para o desenvolvimento, mas para remunerar, com conforto, os ativos bancários e atrair moeda estrangeira que sirva para sustentar as remessas futuras de dividendos. Antigamente, quando um negócio era maravilhoso, se falava em “negócio da China”. Os investidores espanhóis devem estar substituindo a expressão por “negócio do Brasil”.


Não resisto a contrastar o tempo neoliberal com o passado recente em que o Brasil crescia e gerava emprego para nossos filhos. Com os nossos impostos foram construídos milhares de quilômetros de estradas federais e instalada uma importante capacidade de geração de energia elétrica. Em tempos neoliberais, já vivemos um apagão elétrico e paira no ar a ameaça de uma réplica; nossas estradas estão esburacadas, impondo fretes elevados e registrando um nível de acidentes assustador. O argumento neoliberal para privatizar enfatiza que, assim, elas serão bem mantidas.


O Império dos Banqueiros não prioriza o desenvolvimento, seu foco é o crescimento dos lucros bancários. O número excessivo de acidentados nas rodovias e os 140 mil jovens que estão abandonando o Brasil exigiriam outro tipo de focalização. O Brasil, ao colocar no pedestal os interesses dos bancos, é ideal para o banco estrangeiro.

Carlos Lessa, professor de economia da UFRJ, para o jornal Valor Econômico