A velha mídia está de costas para o Brasil

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O colapso da mídia conservadora chegou antes da falência do País, vaticinada há mais de uma década pelo seu jornalismo. O velho “passaralho” sobrevoa algumas das principais redações que compõem o núcleo duro da oposição ao governo Dilma. Estadão, Abril, Folha, Valor lideram a deriva de uma frota experiente na arte de sentenciar vereditos inapeláveis sobre o rumo da Nação, enquanto o seu próprio vai à pique.


O setor vive uma de suas mais graves crises, da qual o leitor só tem notícia pela qualidade declinante do produto. Enquanto uiva e torce pela espiral descendente da economia, de olho em 2014, a mídia alivia (suprime?) a discussão da efetiva, ostensiva e acelerada decadência em seu metabolismo. Murmúrios escapam de quando em vez, como na coluna domingueira da ombudsman da Folha, Suzana Singer.


Duas observações são obrigatórias. O veículo dos Frias avoca a suavização de um fracasso com base na mudança sistêmica que apertou as turquesas da concorrência contra o modelo tradicional de jornalismo. Mitigação equivalente é sonegada ao governo e ao país, submetidos aos constrangimentos de um mundo que se liquefaz na desordem neoliberal.


Número dois: antigamente, a expressão “menor, mas mais sofisticado”, uma variante do surrado  “fazer mais com menos”, era sinônimo de arrocho e superexploração. A transição tecnológica da Internet talvez não explique integralmente a corrosão edulcorada nos velhos chavões patronais. Corporações que fazem água nesse momento não são entes genéricos; não praticam qualquer jornalismo, não reportam qualquer país, tampouco adernam num ambiente atemporal.


Uma singularidade precisa ser reposta: o jornalismo dominante virou as costas ao País na última década.  Se a tecnologia envelheceu o suporte, o conservadorismo esférico, traduzido em antipetismo obsessivo, mumificou a pauta. A saturação da narrativa antecedeu o esgotamento do meio. Ao ocupar diariamente suas páginas com a reprodução da mesma matéria – “o fracasso do Brasil”, as corporações contraíram um vírus fatal ao seu negócio: o bacilo da previsibilidade.


A recusa em discutir os reais problemas do desenvolvimento brasileiro – que existem e são sérios –, o veto às soluções que escapam à estreiteza de seu receituário, erigiu a sólida base de irrelevância desse jornalismo, esmagando-o nos limites de um universo leitor incapaz de sustentá-lo. O golpe de misericórdia tecnológico, no caso brasileiro, talvez seja apenas isso. Uma gota d’água adicional em um galeão perfurado de morte pelo seu próprio peso.


Se o objeto em questão parece irremediavelmente comprometido, cabe à mídia progressista ocupar o seu espaço erigindo-se em uma verdadeira caixa de ressonância dos grandes debates do desenvolvimento nacional. Não há mandato cativo na história. Essa função será desempenhada pela comunicação que souber contornar o vírus da irrelevância tendo como norte a certeza de que as ideias só se renovam e pertencem ao mundo através da ação.


Saul Leblon – Agência Carta Maior