Adital pode fechar: sustentabilidade econômica e lutas de libertação

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Por problemas financeiros, Adital pode fechar! Leitores que apreciam suas reportagens e artigos de opinião alternativos à grande mídia, provavelmente, pensarão: “que pena! Isso não deveria acontecer.” Essa expressão “não deveria” nos coloca diante de uma reflexão necessária entre o que deveria e o que pode ser, entre a importância de mídias críticas alternativas e a sua sustentabilidade econômico-financeira. Se avançarmos nessa lógica, também entre projetos de sistemas sociais alternativos ao capitalismo e sua sustentabilidade econômica.


Além dessa questão ético-prática (tensão dialética entre o que deve ser e o que pode ser), essa expressão “não deveria” pode também revelar a não aceitação desse problema tão “capitalista”, de um projeto de resistência ao capitalismo: a questão de receitas financeiras. Há no inconsciente coletivo da esquerda, especialmente na esquerda cristã, uma vaga ideia de que projetos e organizações que lutam contra o capitalismo em busca de uma outra sociedade não deveriam discutir o problema da sustentabilidade financeira porque essas questões seriam demasiadamente capitalistas.


Essa palavra, a sustentabilidade, é usada quase que somente para falar da sustentabilidade ambiental, aparece aqui em um sentido “estranho” a sua cultura: sustentabilidade financeira de projetos anticapitalistas. Em parte, isso se deve ao fato de que muitos de nós estamos mais ocupados em criticar o que é injusto ou está errado e pouco dedicamos a pensar sobre a viabilidade dos projetos alternativos ou até mesmo para refletir se o parâmetro usado para criticar o capitalismo ou a política econômica do governo é viável.


Não basta querer ser alternativo; é preciso criar um modo alternativo sustentável e eficiente de produção, distribuição e consumo de bens materiais e simbólicos. A crise financeira da Adital nos mostra a validade ainda hoje, segundo alguns tempos pós-modernos e de espiritualidades “cósmicas”, da tese marxista de que a economia, as condições materiais de reprodução da vida, estabelece os limites de possibilidade das outras esferas da vida social.


Não basta termos simpatia ou solidariedade com organizações e lutas anticapitalistas, é preciso também cuidar da sua sobrevivência, da sua sustentabilidade econômico-financeira. Espero que a Adital possa sobreviver a essa crise. Se não, sua ausência será muito sentida e uma nova tentativa de criar algo parecido exigirá um custo muito alto.


Jung Mo Sung – autor, com Hugo Assmann, de “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres” Ed. Paulus