Carlos Eduardo, presidente eleito do Sindicato, fala dos desafios para o próximo triênio a frente da diretoria do SEEB/CE

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O presidente eleito do Sindicato dos Bancários do Ceará, Carlos Eduardo, é funcionário do Banco do Brasil desde 2001. Graduando em Ciências Sociais pela UFC e egresso do movimento estudantil, atualmente, ele é secretário de Finanças da entidade e, com apenas 32 anos, irá comandar um dos dez maiores sindicatos de bancários do País. Nesta edição, ele fala sobre os desafios para a nova gestão a frente do Sindicato, além dos principais temas da campanha salarial e dos dilemas do sistema financeiro nacional

Tribuna Bancária – Você é um bancário bastante jovem, tanto em idade quanto em tempo de banco. Como foi a sua entrada para o movimento sindical?

Carlos Eduardo – Eu sou egresso do movimento estudantil. Quando assumi o concurso público do Banco do Brasil, nós vivenciávamos um período de transição de fim do governo Fernando Henrique e início do governo Lula e a CUT, a Central Única dos Trabalhadores, através de um programa de renovação de quadros, realizava debates da juventude trabalhadora e, aquilo acabou sendo um link do movimento estudantil para o mundo do trabalho, a partir dessa linha de atuação da CUT, através do Sindicato dos Bancários. E isso fez com que a gente iniciasse essa caminhada sindical.

TB – Há quanto tempo você faz parte do Sindicato?

Carlos Eduardo – Desde dezembro de 2004. Assumi em dezembro de 2001 no Banco do Brasil, na agência de Maracanaú. Em março de 2004 fui para a [agência] Comercial Montese, de Fortaleza, e aquele foi um ano que, já dirigente sindical não liberado, trabalhamos muito para organizar e fortalecer a greve histórica de 2004, que durou 30 dias. Nesse momento, a direção do Sindicato entendia que era importante ter um novo bancário liberado para dialogar com o segmento jovem que crescia na categoria, muito particularmente no Banco do Brasil, depois Banco do Nordeste, Caixa Econômica e bancos privados, que, em média, tem de cinco a dez anos de banco. Esse diálogo foi entendido como necessário e foi solicitada a nossa liberação. Primeiramente, assumimos a Secretária de Assuntos Jurídicos Coletivo, depois a Secretaria de Finanças e agora, após a candidatura, a presidência do Sindicato dos Bancários.

TB – E como você se sente prestes a comandar um dos maiores sindicatos de bancários do País?

Carlos Eduardo – Ciente do desafio de, respeitando a história do nosso Sindicato, que já tem 76 anos, 75% da sua categoria filiada, é um dos maiores sindicatos da CUT no estado do Ceará, um dos dez maiores sindicatos de bancários do País. Acredito que nós temos que avançar na defesa do emprego, da saúde, previdência, segurança, condições de trabalho e saber que a gente precisa avançar na representação do ramo financeiro. E sabemos que esse desafio se faz agregando à história do nosso Sindicato a experiência de quem já lutou bastante e a construção de novas gerações que venham a melhorar a gestão do nosso Sindicato e construir uma reserva da esquerda de transformação social para o nosso País.

TB – E com relação aos financiários, como está a mobilização nacional no sentido de agregá-los e de lhes dar melhores condições de trabalho?

Carlos Eduardo – Essa questão foi vislumbrada por nós desde a criação da CUT de que nós precisávamos nos organizar por ramo de atividade. E isso, de fato, aconteceu, ao criarmos, em 2005, a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, Contraf. No caso das financeiras, correspondentes bancários, lotéricas, a criação da Confraf foi uma estratégia dos trabalhadores para ter mais condições de, além de proteger os direitos desses trabalhadores, avançar numa organização importante que venha a trazer frutos e exemplos para toda a classe trabalhadora. O trabalhador de financeira, de lotérica, não tem contratação, não tem campanha salarial, ele precariza a profissão de bancário. É uma interpelação fraudulenta de mão-de-obra feita pelos banqueiros e eles, inclusive, se organizaram. Hoje você não tem mais a Febraban como única organização. Mas a criação da Confraf já trouxe avanços. Hoje nós já fazemos contratação [de representação] da BV Financeira, da Aimorée, e precisamos avançar cada vez mais.

TB – Com relação ao processo eleitoral pelo qual o Sindicato acabou de passar. Foram 21 anos com Chapa Única e agora, depois de todo esse tempo, o Sindicato enfrentou uma chapa de oposição. Como você encarou esse processo?

Carlos Eduardo – Primeiro que, como tenho sete anos de banco, eu não estou aqui há 21 anos. Mas a história desses 21 anos foi conduzida pela Central Única dos Trabalhadores à frente do nosso Sindicato. Foram sete períodos eleitorais que passaram pelo governo Fernando Collor de Melo, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e governo Lula. Nesse período, tínhamos, no primeiro momento, uma marginalização do movimento sindical, com demissão, política de reajuste zero e uma observação interessante: os trabalhadores de bancos públicos tinham mais receio de retaliações do que os companheiros de bancos privados. Então havia um distanciamento do cotidiano do Sindicato. Esse grupo da CUT representou a categoria nesse período, defendeu direitos históricos, como o ticket-alimentação, a cesta-alimentação, o auxílio-creche, a própria Convenção Coletiva, a database dos bancários. A partir do governo Lula, nós voltamos a organizar greves e elas trouxeram um novo fôlego, não mais como resistência, mas como uma participação efetiva dos trabalhadores no movimento sindical. Conseguimos o reconhecimento dos delegados sindicais, da organização por local de trabalho e isso leva, naturalmente, que haja mais visões do movimento. E no estatuto do nosso Sindicato é garantida a premissa de que quem é sindicalizado há pelo menos seis meses possa se candidatar para a representação dos trabalhadores. No entanto, estamos felizes de termos sido escolhidos como mandatários dessa nova gestão, com a perspectiva de continuar conduzindo o Sindicato na linha da construção de um País diferente e que o bancário tenha a sua profissão valorizada e protegida.

TB – Então, na sua interpretação, após a entrada do governo Lula, houve um avanço do movimento sindical? Quais as suas perspectivas para esse avanço, principalmente nesse cenário de crise?

Carlos Eduardo – Nós tivemos dois grandes debates durante a eleição. Um debate tratava sobre a linha da CUT que aponta para a unidade da categoria, com o fortalecimento da Convenção Coletiva de Trabalho, as dificuldades para continuar fortalecendo a unidade da categoria nacional e, independente de ser de banco público ou privado, ele é tratado como custo dentro de uma perspectiva de sistema financeiro e isso leva a um paradigma que temos que enfrentar que é aumentar o piso do bancário, lutar para que, cada vez mais, exista uma regulação da remuneração total do bancário, das suas condições de trabalho e da atuação dos bancos no sistema financeiro. Não podemos ficar distanciados da discussão do sistema financeiro e a quem serve esse sistema financeiro. Continuamos num momento onde a crise financeira internacional, que não afetou o lucro dos bancos, mas que afirmam que os trabalhadores têm que pagar por essa crise e nós não temos que pagar por ela. E hoje, nós temos uma relativa estabilidade política e econômica no País. Nós temos que fortalecer cada vez mais isso. O projeto neoliberal, de não ter mais bancos públicos, do mercado como regulador das relações políticas, econômicas e sociais, como dizia Adam Smith, é um debate que o movimento sindical tem um espaço fantástico para fazer e para enfrentar, para que venhamos a avançar na disputa da hegemonia nacional para com os trabalhadores.

TB – Como você vai procurar, no comando de uma chapa de situação, lidar com as diferenças de ideologias e visões dentro da diretoria e da categoria?

Carlos Eduardo – Nós passamos sete mandatos eleitorais neste Sindicato sem oposição. Mas não eram chapas que tinham apenas uma visão. Tivemos agora duas chapas inscritas com algumas diferenciações importantes delineadoras dos seus matizes ideológicos, mas não temos agora nem mais Chapa 1, nem Chapa 2. Nós temos agora que organizar e fortalecer a nossa categoria no enfrentamento contra o Capital, contra o sistema financeiro. E eu não tenho dúvida que essa campanha salarial que se avizinha é um retrato disso. Nós estamos chamando a Intersindical, a Conlutas, a CTB, a UGT para buscarmos juntos, no mesmo processo negocial, a mesma contratação e, para alcançarmos isso, precisamos fortalecer a organização por local de trabalho, a ação sindical, para que ela traga a perspectiva de mobilização e esta leve a um processo de negociação e que esta negociação seja não somente na database, mas permanente e que traga frutos constantes. O Capital não espera a database para fazer suas alterações de gestão, para explorar, para demitir o trabalhador. Então, nós não podemos achar que a database é a única resposta que nós temos que dar durante o ano. Temos que trabalhar muito e cada vez mais forte durante todo o ano e que os bancários possam também dar a sua contribuição para que tenhamos uma efetiva responsabilidade social por parte do patronato, que não seja somente marketing, que seja realmente da proteção ao emprego ratificando a Convenção 158 da OIT [Organização Internacional do Trabalho], a liberdade de organização do movimento sindical, ratificando também a Convenção 87 da OIT, a liberdade e a garantia de negociação coletiva. São esses instrumentos que nos levam a buscar novas perspectivas. É inerente à classe trabalhadora ter diversas visões que são construídas a partir de seus debates, mas a capacidade de superar as divergências numa grande luta unitária para enfrentar o Capital trará um maior benefício para que os trabalhadores possam defender seus direitos e avançar nas conquistas.

TB – Quanto à campanha salarial 2009, quais são os eixos que você acredita que vão predominar?

Carlos Eduardo – O grande debate hoje no ramo financeiro é com relação ao piso da categoria. Nós defendemos o piso nacional do Dieese [Departamento Intersindical de Estáticas e Estudos Socioeconômicos] como o piso da categoria e essa luta já apareceu na campanha salarial do ano passado, quando conseguimos quebrar a lógica do Capital e tivemos um reajuste superior para o piso e um reajuste com aumento real também para outras verbas. Temos ainda que avançar num modelo simplificado de participação dos lucros. Outras questões econômicas, como firmar novas políticas sobre saúde, segurança, plano de cargos e salários e de previdência complementar para todos os trabalhadores, sejam eles de bancos públicos ou privados. Entretanto, nós estamos numa conjuntura de baixa inflação, em torno de 4,75%, com tendência de queda, e isso é bom porque baixa inflação permite que os trabalhadores tenham reajustes superiores à inflação, mas, ao mesmo tempo, é uma conjuntura econômica de recessão com diminuição do desenvolvimento. Por outro lado, temos lucros nos bancos privados só um pouco inferiores do que no ano passado e temos lucros também nos bancos públicos, que estão atuando como agentes de fomento e esses lucros têm de ser estornados para quem os produz.

TB – Por isso, então, a discussão de um novo modelo de PLR [Participação nos Lucros e Resultados] que não seja atrelada aos lucros?

Carlos Eduardo – Nós temos um problema porque, nesse momento de crise, os bancos têm informações contraditórias. Alguns chegaram a divulgar quatro balanços diferentes. Então, temos a participação dos lucros com uma regra básica, mais um adicional vinculado ao lucro – que lucro, se eu tenho quatro balanços divulgados? Então, nós temos que ter uma regra mais simplificada que proteja a regra básica dos bancários, mas que estabeleça a perspectiva da regra adicional.

TB – E você acha que esse argumento da crise ainda vai ser usado esse ano pelos banqueiros?

Carlos Eduardo – Nós tivemos uma vitória no ano passado, depois de uma campanha nacional dos bancários no centro do furacão da crise. Nós sabemos que foram mais de 15 mil demissões no Real/Santander, mais de mil no HSBC, os bancos públicos estão contratando, mas precisam contratar mais porque, a partir do momento que você é um instrumento do governo para o desenvolvimento da economia, você tem uma maior demanda da população nesses bancos. Então, é preciso que essa sobrecarga seja compensada com mais contratações para dar um melhor atendimento e fortalecer essas empresas, como tem acontecido nesse último período. A crise financeira internacional existe, mas ela tem impacto diferenciado na economia brasileira. O lucro do Banco do Brasil no primeiro trimestre é de bilhões, o lucro do Bradesco é de bilhões, a gente não está falando de déficit, mas de um lucro que manteve-se extremamente alto. Sabemos que os banqueiros vão utilizar esse argumento novamente e que, se não for esse, eles lançarão mão de outro qualquer: que o spread [refere-se à diferença entre o preço de compra (procura) e venda (oferta) da mesma ação, título ou transação monetária] bancário diminuiu, que a taxa Selic [índice pelo qual as taxas de juros cobradas pelo mercados se balizam] diminuiu, que as operações de tesouraria estão gerando menos lucros, mas a produtividade do bancário é altíssima, que por si garante o aumento real. Nós temos que compartilhar os lucros com os banqueiros e agregar outros valores, como aumentar o piso da categoria, PLR melhor, novos planos de cargos e salários para quem tem e a implantação de um plano para quem não tem. Esses são os grandes objetivos da campanha salarial desse ano, a meu ver.

TB – O movimento sindical obteve uma grande vitória, depois de lutar tantos anos contra a privatização dos bancos públicos, ao ver reconhecida a importância desses bancos durante a crise econômica. Qual você acha que é realmente o papel de um banco público?

Carlos Eduardo – Os bancos públicos têm de fazer parte do desenvolvimento da nação. Hoje, o sistema financeiro é internacionalizado, mas os bancos públicos têm um papel, ou pelo menos deveriam ter, de ser uma reserva de confiança para o desenvolvimento. Enquanto o governo federal diminuiu o depósito compulsório e liberou mais de 100 bilhões de reais para que os bancos emprestassem e mantivessem o nível de crédito, os bancos privados resolveram lucrar com a crise. Os bancos públicos optaram por continuar emprestando, mas ainda precisam diminuir essa timidez; hoje você tem a política do Pronaf, financiamentos e empréstimos via BNDES, o programa Minha Casa, Minha Vida da Caixa, o Programa de Aceleração do Crescimento [PAC] também pela Caixa. Isso gera um novo pacto social dentro da sociedade a partir de crédito, e quanto mais crédito, mais investimento que traz mais negócios, mais consumo e esse consumo vai gerar aquilo que se chama na economia de “círculo virtuoso” e esse impacto vai além da categoria bancária, se estendendo para toda a sociedade brasileira. E esse impacto precisa ser permanente. Nós temos hoje em torno de 38% do PIB em crédito, é muito pouco ainda. O papel de um banco público, aliás, de qualquer banco, deveria ser gerar o desenvolvimento. Além disso, o banco público deve ainda procurar regular o mercado para que ele não seja algoz da sociedade onde atua. Essa é a grande luta do povo brasileiro.

TB – E essa questão da terceirização dentro dos bancos públicos, como você analisa?

Carlos Eduardo – A terceirização é uma contradição, porque onde se tinha uma mão-de-obra extremamente qualificada, precariza-se o serviço com o trabalhador terceirizado que, além de não ter os mesmos direitos de um bancário, não tem as mesmas condições técnicas de atender à população. Dentro da Caixa Econômica nós já fizemos um termo de ajuste de conduta e isso foi revisto. Só que nesse avanço está presente outra contradição: de cada três terceirizados que não têm seus contratos renovados, apenas um bancário é contratado. No Banco do Brasil também tivemos uma grande vitória: o serviço de medicina do trabalho estava quase todo terceirizado e conseguimos rever isso recentemente. Mas a retaguarda e atendimento, a tecnologia, os correspondentes bancários se tornaram extremamente precários – uma popularização do atendimento do que o sistema financeiro chama de lixo bancário: que as unidades bancárias sejam locais de grandes negócios e que o povo seja atendido de forma precária através de elementos mais periféricos, sem estrutura. Infelizmente, essa não é uma questão de um ou outro banco, o sistema financeiro atua dessa forma. E a nossa estratégia de também representar os terceirizados é o que pode agregar a 450 mil trabalhadores bancários – mais um milhão de trabalhadores no enfrentamento do sistema financeiro.

TB – Você tem muito dentro de si essa ideia de uma nova sociedade. Mas o que seria essa nova sociedade para você, o Carlos Eduardo homem, bancário e sindicalista? O que você sonha para o futuro, dentro dessa nova sociedade?

Carlos Eduardo – Acho que a gente constrói novas utopias nessa luta cotidiana. Mas é preciso que o mundo tenha mais respeito ao próprio mundo em que vivemos, ao meio ambiente, à dignidade humana, que tenha mais respeito com a pluralidade de pensamento, onde os pilares da economia não sejam os únicos redentores do doutrinamento da sociedade e que ela possa se regular pela sua pluralidade cultural, regional, das suas identidades. Esse mundo que está, da forma que ele está, não serve à humanidade. Ele serve só à parte da humanidade e boa parte dela está fora desse mundo. Nós queremos que essa realidade se altere para que todos possam participar. E onde isso não for possível, que tenhamos Estados nacionais fortes, com estruturas políticas estáveis, democráticas, com políticas públicas sociais, que traga uma perspectiva de um desenvolvimento não só econômico, mas também social. Esse é o mundo que eu quero, que eu acho que toda a esquerda quer. É isso que perpetuamos todos os dias. E temos que nos contrapor de forma responsável, para definirmos para onde queremos levar essa sociedade, para que ela se torne mais justa e digna.