Combater a violência ao idoso é questão de humanidade

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A chegada da velhice, muitas vezes, não vem acompanhada pelo crescimento do respeito por parte dos mais jovens. A perda da lucidez e da agilidade física é encarada por alguns como uma oportunidade para maltratar ou extorquir os idosos. Por isso, anualmente, a população mundial se solidariza com a causa e dedica um dia, o 15/6, para combater a violência contra a pessoa idosa.


No Ceará, políticas públicas de combate ao crime têm aumentado nos últimos anos, assim como o número de denúncias. Dados do Centro de Referência Especializada da Assistência Social (Creas) de Fortaleza revelam que, de janeiro a maio de 2009, 243 casos foram denunciados, enquanto que em todo o ano passado o número chegou a 528. Segundo o órgão, os tipos de violência mais comum são: psicológica, negligência, abuso físico e financeiro.


A recente fundação do Centro Integrado de Atenção e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (Ciapi), órgão do Governo Estadual, ainda não permite a contabilização exata do número de casos. Fundado em abril de 2009, o Centro trabalha atualmente com 34 famílias, através da organização de palestras de conscientização, oficinas (crochê, bordado etc) e grupos de convivência. A instituição também já disponibiliza um telefone para denúncias: 0800-275 5555.


A coordenadora do Ciapi, Aldacir Simões, explica que a maioria dos casos de violência contra o idoso é de caráter financeiro e parte da própria família. “Muitas vezes, o sobrinho ou mesmo o filho pega o cartão de pensão do parente idoso e utiliza de forma indevida”, afirma. Ela relata que o medo ainda é um importante empecilho para que muitos casos permaneçam abafados. “É muito comum que o agressor seja usuário de drogas, e por isso o idoso fica com medo de que algo ruim lhe aconteça. Acaba que o amor fala muito mais alto”.


Segundo Aldacir Simões, além de realizar trabalhos de prevenção, o Ciapi procura reintegrar a vítima de violência à família, através de reuniões de conciliação e da ajuda de uma psicóloga. “Se tem algum caso de uso de drogas, procuramos encaminhá-los para os Caps (Centro de Atenção Psicossocial)”, acrescenta. A coordenadora afirma ainda que, mesmo com ajuda profissional, os casos de agressão contra o idoso costumam deixar seqüelas para a vida toda, o que se reflete no lema que o Centro carrega atualmente: “a violência deixa marcas difíceis de apagar”.


Em uma das instituições mais tradicionais de assistência integral ao idoso do Estado, o Lar Torres de Melo, outra forma de violência se faz bastante presente: o abandono. Ao todo, a instituição possui 250 internos com idade acima de 60 anos de idade, em sua maioria deixados indiscriminadamente pelas famílias. Os motivos para essa atitude variam, vão desde dificuldades financeiras no tratamento dos parentes mais velhos até o mero desprezo que possuem por eles.


Dentre as diversas histórias de abandono que o Lar Torres de Melo possui, uma das mais incríveis é a de Emanuel Figueiredo de Moura Brasil, o “Seu” Brasil. Alcoólatra assumido, ele perdeu há vários anos o contato com a única filha e teve de morar durante 14 anos nas ruas de Fortaleza. Brasil relata que, depois de ter sido esfaqueado durante uma tentativa de assalto no centro da cidade, foi encaminhado ao Lar Torres de Melo, aonde chegou “arrasado moralmente, fisicamente, espiritualmente e financeiramente”. Hoje, aos 70 anos, ele fala abertamente sobre os sofrimentos pelos quais passou e diz que o Lar “é a sua vida”.