Desafios para 2009

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A onda neoliberal, que vem dos anos 1980, se tornou hegemônica após a queda do muro de Berlim e rebentou na praia com força. Vieram abaixo as bolsas de valores e o sofisticado sistema financeiro global desta “economia de cassino”, abalando a economia real. É a crise de uma globalização econômico-financeira insustentável, que aprofundou a desigualdade no mundo, tanto entre países como no interior deles mesmos, e nos levou à beira de um colapso ambiental. Tendo como epicentro os EUA e os países desenvolvidos, a crise se alastra e afeta todo mundo. Como será o amanhã é difícil prever. Viver esta crise de modo proativo é um grande desafio.


De meu ponto de vista, o momento torna incontornável uma reflexão estratégica que combine democracia participativa e radical com justiça social e ambiental, e seja capaz de enfrentar ao mesmo tempo o déficit de infraestrutura físico-econômica e cultural e as múltiplas desigualdades sociais brasileiras. Neste sentido, penso que se faz urgente retomar uma agenda criadora de nova onda de democratização, partindo da institucionalidade democrática conquistada, mas levando a democracia às relações entre gêneros e grupos étnicos, entre capital e trabalho, no acesso e uso sustentável do bem comum natural de nosso País. Para isto, todos precisam expressar sua identidade e demandas, por na agenda pública seus direitos negados, mostrar a legitimidade de suas lutas para além da formalidade legal, formar redes e coalizões, agir. Esta é uma tarefa do campo da sociedade civil, isto é, do espaço público de disputas e construção de identidades e agendas. Não podemos esperar que partidos, grandes instituições e representantes políticos cumpram isto. A tarefa é antes de tudo da própria cidadania. Precisamos enfrentar os privilégios travestidos de direitos que negam a igualdade de direitos e responsabilidades cidadãs numa democracia. Precisamos recriar campanhas cívicas de novo tipo, que empolguem, galvanizem e empurrem o País para algo mais do que simplesmente crescer apesar de tudo.


Não é exatamente isto que está na opinião pública brasileira. O horizonte está turvo, sem dúvida. Mas agarrar-se a velhas idéias não ajuda. No plano mundial, ainda resta muita cautela em relação a Obama, apesar de ser a única real novidade no momento. No mais, pouco vamos ver, a não ser líderes mundiais perdidos, sem saber o que fazer diante da crise. O tal sonho chinês parece estar indo ladeira abaixo. E as grandes feridas, como no momento o conflito entre Israel e Palestina, continuam a sangrar muito. O jeito é acreditar, mais do que nunca, no potencial das idéias e das experiências que os mais diferentes grupos humanos vêm tentando desenvolver mundo afora experiências e idéias negadas e até combatidas por uma mídia totalmente a serviço da globalização hoje em derrocada. Sejam ousados!

Cândido Grzybowsk, Sociólogo, diretor do Ibase