É hora de distribuir renda

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O momento de baixa inflação no Brasil não é desfavorável a reposições salariais, como acreditam alguns sindicalistas. Ao contrário, é a hora de buscar conquistas. É o que pensa Ricardo Franzoi, supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos no RS (Dieese/RS), órgão constituído pelo movimento sindical. Ele é formado em Administração de Empresas e Administração Pública, com especializações em Reestruturação Produtiva e Negociação Coletiva, e concedeu essa entrevista ao jornal João de Barro, uma publicação da Apcef/RS. Segundo ele, “este é o momento de distribuir renda”.

Jornal – O Dieese é um órgão constituído por sindicatos, fale um pouco do trabalho que é realizado.

Ricardo Franzoi
– Hoje, a gente tem três tipos de atividades. A principal é de atendimento ao movimento sindical, prestando assessoria à negociação coletiva. A outra é a educação, ou seja, na forma de transmitir essas informações, esse conhecimento através de seminários e palestras, e a terceira atividade é a pesquisa. Todos eles voltados à educação e à pesquisa para essa atividade principal do Dieese que é a assessoria à negociação coletiva. O Dieese também passou a trabalhar, a partir da década de 1980, com dados e informações sobre as taxas de desemprego e também comprovou que as taxas eram superiores às divulgadas. A partir de 2001, o próprio IBGE mexeu na sua metodologia de avaliação de taxas de desemprego que acabaram se aproximando bastante da nossa taxa de desemprego. O que foi um reconhecimento para nós muito importante.

Jornal – E hoje, o trabalho do Dieese está voltado para que tema?
Franzoi – O importante agora para os trabalhadores é discutirmos a distribuição de renda. Eu acho que é o nosso tema daqui para frente, já que o Brasil chegou num período de baixa inflação e isso passa a ser um tema estratégico para o movimento sindical.

Jornal – Quem ganha e quem perde nesses períodos de baixa inflação?
Franzoi – Pela primeira vez depois de muito tempo, estamos vivendo um período de combinação bastante favorável aos trabalhadores, porque estamos num período de crescimento econômico, embora não seja aquele crescimento de que gostaríamos, mas é um crescimento. Temos um crescimento com baixa inflação, se compararmos a outros períodos. Até tivemos períodos em que a inflação foi inferior a de agora, como em 1998, que chegou no final do ano em torno de 2% (hoje temos uma inflação, em média de 3,5% a 4%), só que com uma recessão e uma taxa de desemprego altíssimas, ou seja, em 1998 não havia crescimento. Hoje nós temos crescimento econômico, baixas taxas de inflação e criação de postos de trabalho formais, com carteira assinada, o que é muito importante para o movimento sindical.

Jornal – É difícil reivindicar salários em períodos de baixa inflação?
Franzoi – Existe uma situação relacionada a história do movimento sindical recente. Todas essas direções que hoje estão nos sindicatos, muitas assumiram na década de 1980. E nessa década nós tínhamos uma questão fundamental que era recuperar perdas de salário pela inflação alta. A inflação chegou a ter 5.000% no período de 1989 e 1990, se achava que tínhamos um grande ganho, que na verdade era ilusão, porque logo em seguida nossos salários eram reduzidos pela alta taxa de inflação. Hoje, muitos dirigentes sindicais acham que essa inflação baixa é um problema. Mas o problema não é a inflação baixa, mas os nossos salários, que são baixos. Na verdade essa inflação baixa está nos ajudando a revelar que os nossos rendimentos são muito baixos e que existe uma péssima distribuição de renda no País. Então, a questão é de como vamos encaminhar as lutas para aumentar os salários que possam acompanhar o crescimento econômico e também avancem sobre parcelas maiores da renda nacional. Ou seja, nós estamos vivendo um novo momento de olhar um pouco positivamente, e dizer: de agora em diante não é mais recuperar só perdas passadas. Mas como vamos encarar essa nova luta? É uma mudança qualitativa importante, mas de outra natureza, que é a idéia de passar de uma posição defensiva para uma posição ofensiva de aumentar a participação no produto social. E quem perde e quem ganha, vai depender muito da nossa luta, porque hoje a gente tem que conseguir fazer com que os salários cresçam para que não só acompanhem o crescimento econômico mas avancem sobre esses ganhos trazidos pelo crescimento econômico. Caso contrário, esses ganhos e crescimento econômicos ficarão novamente para o lado do capital.

Jornal – Em junho, o Dieese realizou em São Paulo um seminário sobre campanha salarial na atual conjuntura. Quais os resultados?

Franzoi
– O seminário Negociação – Tempos de Baixa Inflação trouxe exatamente essas questões que estamos conversando agora, ou seja, a importância de fazer essa mudança qualitativa, de sair da posição defensiva. Esse é o momento de termos aumento de salário. A questão da rotatividade é um problema muito sério no Brasil, pois sabemos que os reajustes conquistados são muitas vezes burlados. Então, o seminário serviu para dizer que existem novos desafios. O seminário também foi para dar resposta aos diretores sindicais que estavam olhando a inflação como um problema e não como uma oportunidade de brigarmos com o capital e avançarmos no lucro do capital. Foi levantado uma série de instrumentos, principalmente a questão da produtividade, que temos que colocar na própria mesa de negociação. Outro resultado bem presente e que já está acontecendo foi a questão de ter uma política salarial para o salário mínimo. Pois ele é muito importante enquanto instrumento de subir os pisos, e subindo os pisos, a rotatividade acaba tendo um efeito menor, na medida em que nós tivermos acréscimos bastantes substanciais nos pisos. Então é importante se ter esses ganhos e que eles fiquem no salário. É muito mais importante ganhar um reajuste do que um abono, porque esse reajuste fica no salário, enquanto que o abono é dado só naquele ano. Ou seja, quando eu entro para uma negociação para daqui a doze meses, o meu salário volta ao patamar anterior. Com o reajuste, o meu salário fica superior.

Jornal – Estamos vivendo um período positivo, então?
Franzoi – Sim, é o primeiro momento desses 22 anos que estou no Dieese que acompanhamos, há cerca de três anos, um crescimento econômico, uma taxa de inflação caindo, e também crescimento do emprego formal. É o primeiro momento em que nós temos esse ambiente favorável para se conquistar aumento de salário.