Grande imprensa cometeu suicídio nestas eleições

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                                                                                                               Por André Cintra e Priscila Lobregatte

Ao adotar um pensamento único, elitista e anti-Lula, a mídia entrou numa rota suicida. Esse estilo, “inédito em termos de grande imprensa”, criou “um clima muito pesado de patrulhamento, ataques, macarthismo’’. O diagnóstico é de Luis Nassif, jornalista há mais de três décadas, economista, consultor da CBN (do Grupo Estado) e colunista da Folha de São Paulo. Afinal, porque Geraldo Alckmin, a princípio um político sem grandes rejeições, perdeu as eleições? Veja a análise:

Nassif se tornou uma das vozes mais avessas aos descalabros que tomaram conta do jornalismo. Em sua opinião, a mídia sequer se esforçou para entender um fenômeno como o Bolsa Família – e sai dessa eleição desiludida com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na entrevista que concedeu à série “Mídia x Mídia”, o jornalista mineiro atacou o presidenciável tucano Geraldo Alckmin. “A gestão dele em São Paulo, do ponto de vista administrativo, foi absolutamente medíocre e nunca foi avaliada”. De acordo com Nassif, “Alckmin não tem discernimento” e sofre de “incompetência gerencial”.

As declarações de Nassif foram tomadas no dia 25/10, num escritório da Avenida Paulista, em São Paulo, onde o jornalista coordena a Agência Dinheiro Vivo. Confira os principais trechos dessa entrevista exclusiva.

Por que essa onda anti-Lula e anti-PT ficou cada vez mais forte na grande mídia?
No começo do ano passado, alguns colunistas – não oriundos da imprensa propriamente dita –, intelectuais e pessoas do showbiz, basicamente o (Arnaldo) Jabor e o Jô (Soares), começaram uma crítica mais pesada ao Lula e ao PT. Essa crítica, num determinado momento, resvalou para uma posição de intolerância e teve eco na classe média.

Quando teve eco, aconteceu algo que, para mim, é o mais inacreditável que eu já vi em mais de 30 anos de jornalismo: a Veja entra na parada e começa a usar aquele estilo escabroso. É inédito em termos de grande imprensa – e é um suicídio editorial. Agora, aquele estilo acabou batendo aqui, em São Paulo, em alguns círculos do Rio de Janeiro, induzindo a mídia a apostar na queda do Lula. Quando não conseguiu derrubar Lula, a mídia enlouqueceu. E então todos os jornais caminhavam na mesma direção. Isso não existe. Todo mundo endoidou.

E, mesmo assim, o Lula não caiu…

Aquela diversidade que os jornais ainda tinham e perderam, o pessoal foi buscar na internet. E uma coisa a gente aprende com os blogs: se houver 20 blogs falando ‘’A’’, basta um blog falando ‘’B’’ de forma consistente, que ele inverte e desmascara. Há a interação entre os blogs e seus leitores. Os blogs emergiram como uma alternativa. E isso culminou com a matéria do Raimundo Pereira na CartaCapital. Em outros momentos, a Carta teria feito a matéria e ninguém falaria nada. Agora a matéria teve um alarido infernal, de tudo quanto é blog discutindo. E o tema não morreu.

A ponto de a Globo ter de se explicar… É, tentou, tentou, mas não conseguiu responder. (Ali Kamel) é um rapaz inteligente, mas há coisas que, se você não consegue explicar, é melhor não tentar. Ele tentou e ficou chato, porque estava claro que era uma armação do delegado visando a Globo.

A mídia, cumprindo esse papel, é suicida. Ela não tem como ganhar. Se ela derruba o Lula, ela fica com a pecha de golpista para o resto da vida. Todo problema que surgisse seria imputado à mídia. Ou seja, se ela ganha, ela perde. Se não derruba o Lula – que foi o que aconteceu –, ela mostra que perdeu o poder que ela tinha.

Existe nisso um preconceito de classe?

A Veja já vinha num crescendo de grosserias e ataques pessoais, mas, no ano passado, explodiu. E veio até aquela capa absurda de que o PT emburrece o país…

Quando se entra nesse preconceito monumental, a crítica fica desqualificada. Aquele papel da mídia, de ser mediadora, deixa de existir. E o Lula fez uma coisa de gênio político. Quando começaram os escândalos, ele mandou apurar tudo.

Quando ficou claro que o Lula não ia cair, começaram a falar: ‘’Ah, mas o eleitor do Lula é nordestino, é analfabeto’’. E quem fica com eles (os jornais)? Uma classe média muito paulistana, preconceituosa e anacrônica – porque quem é minimamente sofisticado não entra nesse jogo.

Os jornais apostaram na beligerância entre PSDB e PT? Essa guerra acabou. Os jornais, com amadorismo, achavam que esse clima duraria até a queda do Lula. No dia seguinte às eleições, saem de cena Fernando Henrique, (Jorge) Bornhausen, (Tasso) Jereissati e os jornais e revistas que entraram nessa – eles só prosperam em tempos de guerra. As forças para pacificação são mais fortes do que as forças da guerra.

Fernando Henrique é outro que se queimou. Poderia ser um pacificador… Itamar e Sarney deram declarações, como ex-presidentes, com responsabilidade perante o País. E de repente vem o Fernando Henrique e solta a franga de uma maneira que deixa de ser referência.
Fique atento!