Hollywood à brasileira

35

Nas últimas semanas, nossas próprias casas se converteram em verdadeiras salas de cinema. A todo o momento a “telinha” inundava a sala de visitas dos lares brasileiros com as imagens hollywoodianas da ocupação do complexo de favelas do Cruzeiro e do Alemão. As policias civil e militar e as forças armadas, com um aparato sem precedentes e com milhares de soldados em posição de combate, protagonizaram cenas dignas dos filmes de Hollywood ou da Tropa de Elite I e II. A ficção imita a realidade ou a realidade imita a ficção?


Sem dúvida, o combate ao narcotráfico e ao crime organizado é necessário, urgente e oportuno. Mas, em tudo isso, fica uma inegável sensação de espetáculo “para inglês ver”, especialmente se levamos em conta a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). É como se as autoridades estivessem jogando para a plateia internacional, mostrando que o País tem condições, sim, de abrigar eventos de envergadura mundial.


Terminado o espetáculo, como ficará o dia-a-dia de quem mora nesses morros? Eis outra pergunta incômoda, quase sempre silenciosa e silenciada, mas que certamente aperta o coração e a alma de muitos cariocas. O câncer da droga, da violência e do crime está em franca metástase por todo o organismo da sociedade brasileira, atingindo todas as classes sociais e praticamente todos os estados e municípios. As vítimas se contam aos milhões, envolvendo pessoas e famílias inteiras. Mas as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos sem perspectiva de futuro são, sem dúvida, os grupos mais vulneráveis e indefesos. Com o horizonte cerrado, tornam-se facilmente requisitados, aliciados ou forçados a integrar as milícias do crime organizado. Este, com efeito, mantém atualmente o “emprego” de milhares de pessoas desocupadas.


Como extirpar pela raiz esse tumor maligno? Não se trata apenas de um caso de polícia ou do exército. As forças militares podem e devem ocupar por algum tempo as ruas e vielas dos morros, para garantir a tranquilidade dos moradores que procuram retomar o a própria existência. Necessitam preencher o vazio deixado pelos traficantes. Mas isso não resolve a situação. Tampouco se trata de aplicar analgésicos eventuais ou incursões brutais para ameaçar as facções armadas e, mais ainda, a população. Tais ações espetaculares devem ser acompanhadas de algo mais sólido e duradouro.


Em síntese, além da repressão ao narcotráfico, da prisão e isolamento de seus maiores responsáveis, impõe-se ainda uma ação de duplo aspecto: por um lado, é preciso investigar e punir a indústria da droga, a começar pelos representantes da mais alta hierarquia, não raro ocultos por traz da imunidade parlamentar, da cumplicidade das autoridades e da corrupção policial. Por outro lado, abrir oportunidades de trabalho e futuro para crianças, adolescentes e jovens em formação, procurando recuperar, ao mesmo tempo, os que já entraram no túnel escuro do vício.

Pe. Alfredo J. Gonçalves – Assessor das Pastorais Sociais