Mais uma vez, banqueiros negam tudo

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“Não, não e não”. Isso foi tudo que o Comando Nacional ouviu durante a segunda rodada de negociações com a Fenaban realizada nos dias 5 e 6/9, em São Paulo. A reunião tratou de saúde e segurança e os banqueiros não só desdenharam da situação de risco da categoria dentro das agências como ainda tiveram a coragem de negar que existam metas abusivas. As negociações com a Fenaban continuam na segunda-feira (12/9), com o tema remuneração.


“Essas negativas só enfatizam mais ainda a necessidade de mobilização da categoria bancária neste momento, porque os banqueiros já deixaram bem claro que não vão conceder nada sem a pressão dos bancários”, analisou o presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, Carlos Eduardo Bezerra.

SEGURANÇA – No momento em que dispara o número de mortes em assaltos envolvendo bancos, a Fenaban fugiu de sua responsabilidade perante os bancários e a sociedade ao recusar as medidas efetivas para combater a violência propostas pelo Comando Nacional. Na negociação ocorrida na terça-feira (6/9), os bancos negaram as reivindicações apresentadas pelos trabalhadores sobre segurança.


Levantamento feito pela Contraf-CUT mostra que já ocorreram 31 assassinatos em assaltos envolvendo bancos 2011, dos quais 20 em crimes de “saidinha de banco”. Além disso, a 1ª Pesquisa Nacional de Ataques a Bancos, elaborada pela Contraf-CUT e pela Confederação Nacional dos Vigilantes (CNTV), registrou 838 ataques a bancos no primeiro semestre deste ano, sendo 301 assaltos e 537 arrombamentos, consumados ou não.


“Os bancos estão tirando o corpo fora, jogando a responsabilidade para os clientes e a segurança pública. A sociedade está cobrando medidas preventivas dos bancos e certamente apoia os bancários nessa luta”, afirma Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT e coordenador do Comando Nacional dos Bancários.


Os bancários defendem instalação de portas de segurança com detectores de metais, câmeras em todas as áreas internas e externas das agências com monitoramento em tempo real, vidros blindados nas fachadas; divisórias individualizadas entre os caixas eletrônicos, biombos entre a fila de espera e a bateria de caixas e isenção das tarifas de transferências de recursos (TED e DOC). Também querem melhorias na assistência às vítimas de assaltos e sequestros e a proibição da guarda das chaves de cofres e do transporte de valores por bancários.


Ademir Wiederkehr, coordenador do Coletivo Nacional de Segurança Bancária da Contraf-CUT, considerou frustrante o resultado da mesa de negociação. “Saímos sem propostas concretas para proteger a vida dos trabalhadores e clientes e melhorar as condições de segurança dos estabelecimentos. É uma sinalização péssima num momento em que a imprensa e a sociedade estão apavorados com a ousadia das quadrilhas e o descaso dos bancos”, salienta.

‘SAIDINHA DE BANCO’ – O Comando Nacional propôs uma série de medidas para combater o crime de saidinha de banco, que já levou à morte 20 pessoas em 2011. Entre as medidas, estão a instalação de biombos entre a fila e os caixas, já adotada por algumas empresas.


Os trabalhadores manifestaram também sua preocupação com a situação dos bancários nos municípios em que foram aprovadas leis proibindo o uso de celulares dentro das agências. “Os funcionários não podem ser penalizados pelos bancos em caso de aplicação de multas, pois a fiscalização não é de competência dos bancários”, afirma Ademir.


Os representantes dos bancários alertaram ainda que essa tarefa pode desviar a atenção dos vigilantes da segurança dos estabelecimentos. “Reiteramos nossa contrariedade diante dessa medida, que consideramos ingênua, inócua e ineficaz no combate à ‘saidinha de banco’, na medida em que não impede a visualização dos saques por olheiros”, sustenta.

SÁUDE – No primeiro dia da segunda rodada de negociação, dia 5/9, os bancos recusaram as principais reivindicações sobre saúde e condições de trabalho apresentadas pelo Comando, inclusive as relacionadas às metas. Eles negam que haja metas abusivas nas instituições financeiras e questionam até mesmo a veracidade das pesquisas que apontam o aumento do número de adoecimentos na categoria em razão da pressão por aumento da produtividade.


“A postura dos bancos foi de absoluto desdém em relação à saúde dos trabalhadores e às condições de trabalho. Eles estão sendo irresponsáveis com o sofrimento dos bancários dentro das dependências”, condena Carlos Cordeiro.


O Comando Nacional fez uma longa explanação sobre as precárias condições de trabalho hoje nos bancos, apontando a relação direta que existe entre o assédio moral e as metas abusivas, ambos incentivados pelo atual modelo de gestão – o que está levando a um aumento vertiginoso de adoecimentos na categoria e do uso de remédios de tarja preta.


Levantamento do INSS mostra que as doenças mentais, provocadas pela pressão por cumprimento de metas e pelo assédio moral, já se aproximam do número de casos de LER/DORT. Entre janeiro e junho de 2009, por exemplo, 6.800 bancários no Brasil foram afastados por doenças, dos quais 2.030 por LER/DORT e 1.626 por transtornos mentais. Pesquisa da Universidade de Brasília revelou que houve 181 suicídios de bancários entre 1996 e 2005, o que dá uma média de 18 por ano.


Para combater o desrespeito dos bancos, os bancários propõem, entre outras coisas, a participação dos trabalhadores na fixação das metas, que devem levar em consideração o tamanho, a localização e o perfil econômico das dependências. O Comando Nacional também reivindicou que não haja meta de venda de produtos para os caixas. E que as metas não sejam individuais nem comparadas por quaisquer tipos de ranking.


Os representantes da Fenaban disseram que o estabelecimento de metas é prerrogativa da gestão das empresas, informaram que a recomendação dos bancos é evitar a divulgação de ranking individual de metas, afirmaram não ser possível fazer qualquer relação entre metas, assédio moral e adoecimento dos trabalhadores, e questionaram as metodologias das pesquisas sobre saúde dos bancários. Os banqueiros também declararam que os bancários estão satisfeitos com as metas e que quando um trabalhador sai do banco é para ir trabalhar em outro.


“Quando não têm argumentos, os banqueiros questionam nossas pesquisas, demonstrando que eles não estão preocupados com a saúde dos trabalhadores. Chegaram a duvidar dos dados extraídos do anuário estatístico do INSS”, critica Carlos Cordeiro.


Em resposta ao questionamento dos bancos, o Comando Nacional propôs a realização de uma pesquisa nacional conjunta sobre a saúde dos bancários e sobre as metas, além da inclusão na Convenção Coletiva de uma cláusula proibindo a divulgação de rankings individuais sobre cumprimentos de metas. Os negociadores da Fenaban ficaram de levar essas propostas para a avaliação dos bancos.

ASSÉDIO MORAL – O Comando Nacional e os representantes dos bancos concordaram com a retomada imediata da comissão de acompanhamento da cláusula de prevenção de assédio para concluir o balanço dos primeiros seis meses de vigência do programa.

ELIMINAÇÃO DE RISCOS – O Comando Nacional defendeu a cláusula da pauta de reivindicações segundo a qual os bancos não podem manter bancários trabalhando no mesmo ambiente físico de agências e departamentos que estejam sendo submetidos à reforma. Os representantes da Fenaban não aceitaram incluir essa cláusula na Convenção Coletiva, afirmando que esse é um tema para discussão empresa por empresa, caso a caso.


Os negociadores dos banqueiros também rejeitaram a reivindicação de manutenção da complementação salarial em valor equivalente à diferença entre a importância recebida do INSS e a remuneração total recebida pelo trabalhador (como salários, comissões, gratificações, adicionais, PLR, como se na ativa estivesse) até a cessação do auxílio-doença.


A Fenaban recusou também a proposta de que ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses seja automática, sem a necessidade de opção por parte da bancária.


“Há uma grande resistência por parte dos bancos em discutir de forma aprofundada as questões relativas à saúde do trabalhador, pois eles sabem que esse debate passa pela problemática da organização do trabalho. O tema das metas é bem exemplar disso: eles alegam que seria uma ingerência na gestão, mas na verdade o que eles não querem é admitir que há abusos na estipulação e cobrança das metas, o que importa é que os ganhos de produtividade sejam cada vez maiores, mesmo que à custa do adoecimento dos trabalhadores”, afirma Plínio Pavão, secretário de Saúde do Trabalhador da Contraf-CUT.

Veja os principais itens negados pela Fenaban:

SAÚDE


Metas abusivas e fim do ranqueamento nas agências: Os bancos negam que haja metas abusivas e questionam a veracidade das pesquisas que apontam o aumento do número de adoecimentos na categoria em razão da pressão.


Reformas: Os bancários cobram que os bancos não podem manter bancários trabalhando no mesmo ambiente físico de agências e departamentos que estejam sendo submetidos à reforma. Os representantes da Fenaban não aceitaram incluir essa cláusula na Convenção Coletiva, afirmando que esse é um tema para discussão empresa por empresa, caso a caso.


Afastamentos: Manutenção da complementação salarial em valor equivalente à diferença entre a importância recebida do INSS e a remuneração total recebida pelo trabalhador (como salários, comissões, gratificações, adicionais, PLR, como se na ativa estivesse) até a cessação do auxílio-doença. Reivindicação negada.


Licença-maternidade: A Fenaban recusou também a proposta de que ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses seja automática, sem a necessidade de opção por parte da bancária.

SEGURANÇA

Assistência às vítimas – Os bancários reivindicam que os bancos ofereçam assistência para as vítimas de assaltos e sequestros, contemplando os seguintes itens: garantia de atendimento médico e psicológico individual e presencial aos empregados e suas famílias em casos de ameaça ou consumação de sequestros ou outros delitos; pagamento por parte dos bancos dos custos de remédios e despesas de tratamento dos empregados; emissão de CAT a todos os empregados que estiveram no local de assalto consumado ou não, com comunicação imediata à CIPA e sindicato local; dispensa dos empregados que estiverem no local durante a ocorrência; fechamento da agência até que seja feita perícia técnica com participação do Sindicato. Resposta : Os bancos defenderam apenas a manutenção da cláusula atual, conquistada na campanha nacional do ano passado.

Equipamentos e medidas de prevenção contra assaltos e sequestros – O Comando Nacional cobrou a implementação dos seguintes equipamentos de segurança: instalação de portas individualizadas de segurança com vidros à prova de balas, antes do autoatendimento; câmeras de filmagem em todas as áreas internas e externas de circulação de clientes; instalação de divisórias individualizadas na bateria de caixas e entre os caixas eletrônicos, bem como de biombos entre a fila de espera e a bateria de caixas; instalação de vidros em frente aos guichês de caixa; vidros blindados nas fachadas; malhas finas de aço nas janelas com acesso às ruas; proibir a triagem de clientes antes do acesso à parte interna das agências e postos; instalação de caixas eletrônicos somente em locais seguros. Resposta: Os bancos negaram, encaminhando as questões para a mesa temática de segurança, a ser retomada após a campanha nacional. Somente em relação às câmeras, a Fenaban ficou de procurar os bancos para trazer uma proposta de ampliação.

Proibição da guarda de chaves e acionadores de alarmes por bancários: Os bancos negaram a reivindicação, alegando que a posse da chave não aumenta a exposição dos bancários ao risco de sequestro.

Proibição de transporte de numerário por bancários: Bancários querem que o transporte de valores seja feito somente por vigilantes em carro-forte, conforme estabelece a lei federal 7102/83. O assunto é objeto de procedimento que se encontra pendente na Procuradoria Geral do Ministério Público do Trabalho. A Fenaban ficou de consultar os bancos.


Outros itens: Os bancos se negaram a discutir as reivindicações de estabilidade no emprego de 36 meses e indenização aos empregados vítimas de assalto ou sequestro.