O fantasma da privatização volta a assombrar

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Apesar de tantas análises em contrário, ainda tem gente que aparece para defender a privatização dos bancos públicos no Brasil. Só precisam de uma desculpa e para Maílson da Nóbrega – economista e ministro da Fazenda do governo José Sarney, quando a inflação no Brasil galopava acima dos 1.000% ao ano – essa desculpa veio com a troca da presidência do Banco do Brasil, determinada pelo seu acionista majoritário, o governo federal. O objetivo da medida é que o BB faça seu papel de banco público, puxando os juros para baixo e ampliando a oferta de crédito para ajudar o Brasil a superar a crise.


Na contramão de tendências internacionais, que admitem que os países que têm bancos públicos fortes estão mais aptos a enfrentar a crise mundial, o ex-ministro escreve em artigo da sua coluna quinzenal na revista Veja (edição de 22 de abril) que “já não existe falha de mercado que exija um BB estatal”. O título do artigo não esconde intenções: “é hora de privatizar o Banco do Brasil?” e a resposta vai sendo construída com pérolas como a que consta logo do primeiro parágrafo: “a recente ingerência no Banco do Brasil frustrou quem achava que ele estava protegido contra o populismo inconsequente”. E prossegue com citações a países que deixaram de ser exemplo de qualquer coisa quando se trata de regulação da economia: “bancos estatais se justificam se o mercado não é capaz de prover o crédito e o sistema de pagamentos. A Inglaterra e os Estados Unidos, onde não havia essa falha de mercado, enriqueceram sem dispor de bancos públicos. Países europeus criaram bancos comerciais estatais para se industrializar, mas praticamente todos já foram privatizados”.


A opinião do ex-ministro não deveria ser sequer levada em conta. Maílson da Nóbrega esteve à frente da economia brasileira num dos piores momentos para o País. Inflação nas alturas, endividamento, planos econômicos que golpearam os bolsos dos cidadãos e trazem problemas até hoje – como os mal afamados Planos Bresser e Verão. Sabe-se lá porque ainda é ouvido. Foram as políticas econômicas iniciadas com Sarney e levadas a cabo nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que quase quebraram o Brasil. Até projeto de lei para terminar de privatizar o que restou já existia: o PL 373/1999 previa a privatização do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES.


A defesa de um Estado mínimo é a base do pensamento de Maílson da Nóbrega expressa nesse artigo publicado pela Veja. O ex-ministro admite que “Durante três décadas (até meados da de 1980), o crédito do BB se expandiu sem parar. Seus lucros cresceram. Tornou-se um dos oito maiores bancos do mundo. Tudo isso cobrando juros muito abaixo dos de mercado e com uma onerosa estrutura para atender à orientação do governo.


Maílson acha que o BB está exposto a “obsessões do governo (ou objetivos eleitorais?)” e que para isso “conta com um forte incentivo: uma nova ruína do banco somente aconteceria em próximas administrações”. É óbvio. A ruína do Banco Brasil virá se essas “próximas administrações” levarem a cabo o plano de acabar com o papel e a importância dos bancos públicos federais, como fizeram com quase todos os estaduais. E isso é o que não pode acontecer.

Luiz Cláudio Marcolino – presidente do Sindicato dos Bancários de SP