Operação de umbigo

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A Globo está se anunciando a si mesma. Recrutou as estrelas de seu maior firmamento e, numa revoada alvar de sorrisos e figurinos, sai por aí festejando os méritos que ela própria se atribui.Antes, o Almanaque Capivarol. Hoje, a Rede Globo de Televisão.


É normal, mas, no caso da Globo, é também instigante. A cavaleiro de seu poderio quase hegemônico, vislumbrando aquela planície de concorrência zero, a emissora sempre se deu ao luxo de ser parcimoniosa na contemplação do próprio umbigo. Tem, claro, aquela coisa feérica de final de ano, os arrancos ufanistas do Galvão Bueno e os surtos periódicos do Pedro Bial, o biógrafo do patrão. Mas, olímpica no seu pódio de qualidade tecnológica e competência artística, à Globo bastava olhar em volta e descer sobre o território hostil o véu de sua superior indiferença.


Agora a Globo precisa reiterar e reiterar, além do surrado bordão da qualidade, seu angelical compromisso com conceitos como “liberdade de opinião” e “credibilidade”. Foi o que, com compreensiva incredulidade, este colunista julga ter ouvido enquanto bailavam à sua frente Regina Duarte, Tony Ramos, William Bonner, Fátima Bernardes.


A Globo domina um padrão artesanal de qualidade que é inegável. Aprendeu com o Boni, lá no passado, e ainda não conseguiu desaprender completamente. Por que, então, mentir no que diz respeito a uma pluralidade de opinião que ela jamais cultivou? Cidadania, democracia, liberdade, justiça social são assuntos que a Globo encaminha diretamente para o Departamento Comercial. Princípios, na Globo, vão dormir no setor de achados e perdidos.


Estará ela, então, reagindo ao bafo quente da Record, enfim uma concorrente à altura? A implacável perseguição da Globo e de seus alto-falantes aos evangélicos obedece a uma lógica humanitária ou é que, de olho na Record, seus bolsos começaram a coçar? Enquanto isso, dá-lhe anúncio.


“Qualidade só se vê na Globo.” Não é bem assim, mas esperteza, pelo menos, a emissora dos Marinho ainda exercita. Convém reconhecer. Monopolista das transmissões esportivas no Brasil, ela parece ter entendido que futebol tem sutilezas que nem sempre a razão reconhece.


A notícia da semana é que a Globo vai transmitir, a partir de maio, a Série B do Campeonato Brasileiro. Brilhou na cabeça de alguém a óbvia idéia de que a graça do futebol, no Brasil, sempre estará onde o Corinthians está. A tal Série A, podem escrever, produzirá um sono de cemitério.


O resultado é que Luciano Huck passa a sair, aos sábados, meia hora mais cedo para dividir com Angélica os cuidados da prole. Perde uma fatia do seu programa sem drama, sem choradeira. Huck é o primeiro a saber que, no entertainment canarinho, a prioridade sempre há de ser aquela magia preto-e-branco.

Nirlando Beirão, jornalista da Revista CartaCapital