Por que a canarinho voltou mais cedo?

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Uma seleção nacional de futebol para ser campeã do mundo tem que ter, no mínimo, 70% de futebol, 20% de experiência e 10% de sorte.

Setenta por cento (70%) de futebol, porque isto é a alma do esporte. Sem a habilidade, sem a categoria, sem o talento, sem o condicionamento físico, técnico e tático é impossível chegar lá.

Vinte por cento (20%) de experiência para dar a maturidade necessária às disputas internacionais, bem como familiaridade com os contratos milionários e com a mídia mundial. Sem este embasamento o craque brasileiro treme na base ao se deparar com jogos decisivos, onde lhe falta a malícia e a catimba necessária para, num detalhe do jogo, provocar um cartão amarelo, um escanteio, uma expulsão, um pênalti… A exemplo, cito as seleções de 82 e 86 treinadas por Telê Santana, com os maiores craques do planeta à época e no entanto impotentes diante de adversários mais experimentados.

Dez por cento (10%) de sorte pois, sem ela, qualquer super seleção, por uma desventura de um gol contra, um frango, uma falha individual ou mesmo um erro de arbitragem pode voltar para casa, sendo merecedora do título.

Inobstante não ser completamente fiel a análise destes números, a realidade orbita em torno deles. A Seleção Brasileira tinha o futebol e a experiência necessária para chegar lá. Podemos dizer, também, que a sorte não se furtou a ela. Infelizmente o que presenciamos, apesar de termos tudo para ser hexa campeões foi a desclassificação da “Canarinho”.

Por que, então, não fomos exitosos? É imperativo refletir que esta Copa do Mundo mostrou, para nós brasileiros, que existe um outro fator fundamental neste processo. Com a “estrangeirização” dos craques brasileiros, os seus contratos, as suas publicidades e as suas vidas passaram a girar em torno da Europa. O “estrangeirizado” passou a não estar mais a serviço da Seleção Brasileira e sim de mega interesses internacionais no mundo do futebol.

Como serem nacionalistas se em seus países de origem pouco tiveram oportunidades de vida, vindos extraídos, geralmente, de guetos e favelas? Como acreditar nos sentimentos pátrios do Roberto Carlos, Ronaldo Fenômeno, Ronaldo Gaúcho, Cafu…? Que sentimento nacionalista é este que tanto esperamos destes elementos, uma vez que são frutos de favelas, humilhados, maltratados e excluídos? Até o momento antes de se tornarem astros e se habituarem com a notoriedade e a fama, ainda existe certo amor à camisa nacional, pois precisam da seleção brasileira para se afirmar internacionalmente. Mas, uma vez consagrados, eles se mostram inapetentes e letárgicos para esse nacionalismo utópico que tanto esperamos deles.

Não devamos nos iludir mais. Os nossos craques “estrangeirizados” estarão, sempre, a serviço dos seus clubes e dos seus patrocinadores. Serão sempre servis, capachos e caudatários dos seus patrões. Têm dupla nacionalidade, ou melhor, apenas uma, assumem, nas suas intimidades, a nacionalidade dos países que os transformaram em super estrelas.

No montante dos investimentos que envolvem o futebol no planeta, a participação do Brasil é ínfima. A rigor o Brasil produz, basicamente, a matéria prima, que é trabalhada e lapidada nos laboratórios e gramados europeus. A Europa adquire a nossa mão-de-obra e transforma em super atletas e em super astros. Como querermos ser campeões do mundo, a todo instante, sem participar de forma significativa dos investimentos bilionários neste esporte? Por trás do desporto futebol existe um império de interesses que variam desde a simples valorização do passe de um atleta até a interesses brutais de soerguer e movimentar economias de países. O mundo dos negócios é assim!

Se o Brasil quiser formar uma seleção competitiva, que coloque em campo a alma e o coração, que expresse o sentimento dos corações palpitantes de mais de 180 milhões de brasileiros, haverá de reformular as suas estratégias. Deverá começar reavaliando a postura da direção da CBF, que aí se encontra já há algum tempo e se perpetuará até 2014, tão criticada , denunciada e até mesmo processada.

Como brasileiro bairrista, fiel às minhas origens, torcedor fervoroso da nossa seleção, apesar da desclassificação, elevo a minha flâmula às alturas e mantenho a convicção de que, um dia, quiçá teremos um ambiente mais puro, mais real, mais respeitoso, onde o futebol e o torcedor não sejam apenas meros detalhes e meros expectadores nesta engenharia desleal que manobra o futebol.

Francisco Martonio da Ponte Viana, ex funcionário do BEC