Por que existe o mal?

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A maioria das formulações ontológicas, aquelas que se referem diretamente ao ser, apontam o mal como conseqüência da liberdade humana mal conduzida. Tanto é assim que J. P. Sartre († 1980) chega a afirmar que o homem nasce “condenado à liberdade”, tamanho o risco que essa virtude desencadeia sobre o comportamento humano.

A morte do menino João Hélio, morto de forma brutal, na última semana, após um assalto no Rio de Janeiro comoveu o Brasil. Um grupo de marginais, entre eles um adolescente, rendeu a família, na intenção de roubar o automóvel. Na pressa, os bandidos não notaram que o menino, de apenas seis anos, havia ficado enredado do cinto de segurança, e arrancaram o automóvel, arrastando a criança por cerca de sete quilômetros, deixando-a praticamente esquartejado.

O móvel do crime e suas motivações a gente sabe. O criminoso assalta e mata porque tem liberdade para fazê-lo. Não vou entrar no perfil sociológico do delinqüente, para saber se ele é vítima ou não de um modelo social caótico. Vou reportar-me às idéias de Sartre, no fato de qualquer pessoa, inclusive o bandido, agir na contramão da ética, porque é livre para agir assim. É muito primário, num momento desses, perquirir estas razões. Quero ir mais adiante e dividir questões e assertivas com os leitores.

Porque o bandido mata, ou assume esse risco ao praticar uma ação danosa, todos nós sabemos. O que foge ao nosso entendimento são os porquês referentes à morte do inocente. Em minha tese de Doutorado em Teologia Moral (2005) cujo título é “Deus é bom. Então por que existe o mal?”, eu me reporto a esse sofrimento do inocente, a partir da parábola bíblica do pobre Jó, passando pelo terremoto de Lisboa, em 1755, pelos extermínios nos campos do nazismo, culminando com o estupro seguido de morte de uma menina, na periferia de Porto Alegre. Em todos esses eventos, escutou-se o brado das pessoas, clamando “por que, meu Deus?”.

O clamor que se eleva em cima do sofrimento das vítimas inocentes fica sempre sem resposta. Sabemos que o mal não vem de Deus, que não pertence à sua vontade a ocorrência do sofrimento e das penas. O mal, desde as teorias teodicéias de Santo Agostinho († 430) e de G. W. Leibniz († 1716) é definido como uma “ausência do bem”. No decorrer da história do mundo, os atos maléficos e maldosos têm sido atribuídos não a Deus, mas à liberdade humana mal direcionada. Aí entra a questão do “livre arbítrio”.

No que se refere ao sofrimento do inocente, as causas são mais profundas, e apontam para forças tenebrosas que, pelo duro golpe nas famílias e na sociedade, visam um desequilíbrio e fomentar um sentimento de revolta e descrença capaz de fazer vacilar os mais fortes.

Antônio Mesquita Galvão, Escritor, filósofo e professor de Ciência Política