Redução da jornada de trabalho não é ameaça para a competitividade econômica

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Nesta campanha nacional pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários, nós todos que queremos a mudança devemos nos preparar para rebater um argumento que, com certeza, o empresariado mais retrógrado vai usar freqüentemente, com a inestimável ajuda de seus representantes na imprensa.


Vão dizer que a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais reduzirá a competitividade da indústria brasileira e também do setor de comércio e serviços, o que vai prejudicar nossa capacidade de exportar. Na visão deles, a redução aumentaria o custo da mão-de-obra de tal maneira que os preços de nossos produtos de exportação seriam altos demais. É MEN-TI-RA. Alguns dados muito consistentes contrariam frontalmente a tese dos empresários.


Um dos mais contundentes refere-se ao conceito de competitividade. É preciso lembrar que sequer o Fórum Econômico Mundial (aquele de Davos e um dos mais neoliberais instrumentos do empresariado) considera os baixos salários como fator positivo na hora de medir a competitividade de uma economia nacional.


Portanto, nem mesmo com a redução da jornada, e o acréscimo do custo decorrente da medida, a economia brasileira perderia competitividade aos olhos dos órgãos internacionais. Nada como esgrimir um ícone do adversário como forma de desarmar seu discurso.


A favor da redução da jornada ainda há os números que retratam a realidade do trabalho no Brasil. Nos últimos 15 anos, a produtividade da economia brasileira cresceu 150%. Este dado faz parte de uma tese de doutorado defendida junto à Unicamp, em 2006, pelo economista do Dieese Cássio Calvete, intitulada “Redução da Jornada de Trabalho: uma Análise Econômica para o Brasil”.


Há, portanto, uma enorme camada de gordura no item competitividade. A redução da jornada em 4 horas, ainda segundo o mesmo estudo e com base em números da CNI (Confederação Nacional da Indústria), elevaria os custos da mão-de-obra em 1,99%. Este índice é semelhante à elevação que a produtividade vem registrando, por semestre, ao longo dos anos 2000. Isso quer dizer, simplesmente, que esse custo seria absorvido em apenas seis meses.


Outro dado revelador diz respeito aos salários no Brasil em comparação a seus 20 maiores parceiros comerciais. O poder de compra do salário mínimo em nosso país, apesar das recentes recuperações, só é mais alto que o da Rússia. Em todos os outros 19 países com que trocamos mercadorias, o poder de compra do mínimo é maior. Incluindo em Xangai, região mais industrializada da China.


Podemos dizer com certeza de que não há o menor risco para a competitividade de nossa economia. Quando empresários dizem que reduzir direitos dos trabalhadores e trabalhadoras vai diminuir preços, e, portanto, aumentar a volúpia produtiva, mentem. É preciso destacar, ainda, que as consistentes reduções de custos advindas do processo de reestruturação neoliberal não diminuíram os preços. O que os capitalistas querem, de verdade, é aumentar as margens de lucro.


Há espaço para reduzir a jornada em até mais de 4 horas. Vamos dar este primeiro passo a que nos comprometemos para, então, lutar por mais. A redução da jornada é, isso sim, instrumento para repartir um pouco o crescimento que nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos construindo.

Artur Henrique, presidente nacional da CUT