Sindicato cobra apuração já!

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No dia 12/1 deste ano, o presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, Carlos Eduardo Bezerra, entregou documento à direção da Caixa Econômica Federal contendo denúncias a respeito de um empregado fantasma dentro do banco: o ex-superintendente da Regional Fortaleza, Allan Pires de Aguiar, que não mais comparece ao trabalho, mas continua recebendo remuneração sem a devida prestação de serviço.


O documento que relata o caso e pede providência à direção da empresa foi entregue à Superintendente Nacional de Responsabilidade Social, Empresarial e Relacionamento com os Empregados, Ana Telma Sobreira do Monte. O encontro do presidente do Sindicato do Ceará com a executiva da Caixa contou com a presença de Jair Pedro Ferreira, coordenador da Comissão Executiva dos Empregados (CEE/Caixa).


Em seu relato, a entidade enfatiza que a ausência remunerada de Allan Pires “é do conhecimento dos demais empregados nas dependências da Caixa em Fortaleza, notadamente na Superintendência onde está lotado o referido empregado, circunstância essa que tem causado inquietação e inconformismo entre aqueles que têm ciência do fato”.


A partir daí, o Sindicato ficou no aguardo de providências urgentes por parte da Caixa, o que, infelizmente, até agora, não aconteceu. “Trata-se de um caso extremamente grave para uma empresa do porte da Caixa Econômica, uma instituição pública, onde a legalidade e a moralidade não poderiam estar assim tão desprestigiadas, para não dizer ignoradas”, diz Carlos Eduardo Bezerra.


Após a denúncia, vários empregados da Caixa têm entrado em contato com o Sindicato exigindo maiores esclarecimentos sobre a apuração das denúncias, e o banco tem optado pelo silêncio. “Nós queremos ser partícipes na averiguação do problema, inclusive exigimos o ressarcimento aos cofres públicos do dinheiro recebido indevidamente pelo ex-gestor, um empregado que não prestou devidamente o serviço à empresa”, salienta o presidente da Associação do Pessoal da Caixa (APCEF), Áureo Jr. É importante ressaltar que o maior salário pago pela Caixa no Ceará é o de Allan Pires.

ENTENDA O CASO – O empregado da Caixa, Allan Pires de Aguiar, ex-superintendente durante o período do governo Fernando Henrique Cardoso esteve à frente da Superintendência da Caixa no Ceará e posteriormente afastou-se para assumir a Secretaria de Turismo do Estado, durante quatro anos no Governo Lucio Alcântara. A partir de 2007 tinha por obrigação o retorno às atividades bancárias junto à Caixa Econômica Federal. O Sindicato exige e cobra esclarecimento de quem fez essa política de bater o ponto do referido empregado e de fazer trilha na Universidade Caixa.

PROTESTOS – Cansado de esperar providências, sem qualquer resposta, o Sindicato dos Bancários realizou duas manifestações para denunciar à sociedade as irregularidades e o descaso da Caixa com a questão. O primeiro ato foi realizado no dia 23/3, na agência Fortal. O segundo, na agência Praça do Ferreira e no Edifício-sede.


No mais autêntico estilo do humor cearense, durante as manifestações, as calçadas das unidades foram lavadas por baianas, com a presença de um padre e um pai de santo, como forma de exorcizar o fantasma de Allan Pires.


Após as manifestações, a direção do Sindicato apurou que houve o retorno do bancário, que está destacado na agência da avenida Oliveira Paiva, isento de bater o ponto.


Para Carlos Eduardo, “esse é o tipo de assunto sobre o qual a empresa não pode tergiversar e, tampouco, deixar de esclarecer da forma mais rápida e clara possível, porque diz respeito não só a cada bancário da Caixa, como também a toda a sociedade”.


“O Sindicato precisa dessa apuração urgente. A Superintendência da Caixa no Ceará tem por obrigação fazer esses esclarecimentos aos empregados e à sociedade, apresentando a relação de todos os envolvidos nesse descompromisso”, completou.

TRADIÇÃO NA LUTA CONTRA GESTÕES FRAUDULENTAS


Essa não é a primeira vez que o Sindicato denuncia irregularidades dentro das gestões e direções dos bancos públicos no Ceará. Casos dentro da própria Caixa Econômica Federal, do BEC e do Banco do Nordeste do Brasil foram alvos de campanhas da entidade em prol da moralidade e transparência das administrações dessas instituições financeiras.


Nos idos anos 90, durante o governo do “impeachmado” Fernando Collor de Melo, o ex-superintendente da Caixa Econômica, Paulo Caldas, foi denunciado pelo Sindicato dos Bancários do Ceará por favorecimento de algumas construtoras. A denúncia foi enviada também ao Ministério Público Federal, ficando a cargo do procurador Oscar Costa Filho.


Diante disso, a Caixa foi obrigada a abrir sindicância para apurar as denúncias. O Sindicato, então, fez uma verdadeira campanha cobrando a punição dos envolvidos, especialmente do superintendente Paulo Caldas. As ações da entidade repercutiram por todo movimento social e foram temas de debate na Assembleia Legislativa e na imprensa local, causando uma verdadeira corrente por punição aos acusados. Assim, a Caixa Econômica não teve outra saída a não ser exonerar Paulo Caldas, configurando uma vitória da mobilização da sociedade cearense.

BEC – Em 2001, foi instaurada a CPI do BEC na Assembleia Legislativa, com o objetivo de investigar empréstimos fraudulentos que teriam causado um rombo de R$ 1 bilhão nos cofres do então banco estadual. À época, o presidente do banco era José Monteiro de Alencar (1995-1998), apadrinhado pelo então governador Tasso Jereissati. Mais uma vez, o Sindicato dos Bancários foi o pioneiro em fazer a denúncia e cobrar do poder público providências contra esse ato de gestão fraudulenta.


O dono da construtora Brejosantense, Renan Dias Medeiros, em depoimento à CPI, envolveu o ex-governador Tasso Jereissati (PSDB), o então secretário de Governo e braço direito de Tasso, Assis Machado, e o deputado estadual Raimundo Macedo (PSDB) em denúncias de empréstimos irregulares. Mesmo com as evidências, a CPI foi encerrada sem apontar nenhum culpado. Basta dizer que, na época, 17 deputados eram do PSDB, o que forçou o resultado frustrante diante da manipulação da bancada governista.


Apesar disso, inúmeras manifestações foram feitas pelo Sindicato cobrando a apuração das denúncias e punição dos acusados.

BNB – O Sindicato também combateu gestão fraudulenta de Byron Queiroz à frente do Banco do Nordeste do Brasil. Em junho de 1997, o SEEB/CE foi o primeiro a denunciar na imprensa as irregularidades da gestão Byron Queiroz. Na ocasião, a Folha de S.Paulo divulgou o pedido do Sindicato para que o governo federal investigasse operações do BNB que teriam beneficiado o então governador Tasso Jereissati (PSDB/CE) e o senador Sérgio Machado, então líder do PSDB no Senado. A operação teria acontecido em dezembro de 1994 quando a Poty Refrigerantes, em Natal (RN), fábrica da Coca-Cola que pertencia à família Machado, foi vendida à empresa Refrescos Cearenses e TJ Participações, da família de Jereissati. O imóvel estava hipotecado ao BNB.


Em 1998, o Sindicato reproduziu matéria de capa publicada pela revista IstoÉ (ed. 1610) que denunciava novamente Tasso de beneficiar suas empresas com dinheiro público. De acordo com os auditores do Tribunal de Contas da União, o BNB também concedeu à empresa de Tasso um financiamento, com juros muito abaixo do cobrado a outras empresas. O governador também era um dos investigados pela CPI do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), instalada na Câmara Federal. Ele foi acusado de usar em suas empresas notas frias para fraudar a prestação de contas ao BNB.


Além disso, o Sindicato também realizou inúmeros protestos denunciando à sociedade os desmandos da gestão Byron, que ia desde a transferências ilegais de funcionários, demissões imotivadas, perseguição política de dirigentes sindicais e trabalhadores em geral a desvio de dinheiro e favorecimento político para empréstimos a empresários.


Com a chegada do governo Lula, o Sindicato realizou uma grande manifestação pedindo o afastamento de Byron. Na ocasião, os dirigentes jogaram sal grosso nas costas de um sapo e fizeram a lavagem da escadaria da agência Centro, em Fortaleza.


Em 2010, Byron é condenado novamente pela Justiça Federal, em primeira instância, por omissão de constituição de provisões, pela não classificação das operações de contas em atraso e crédito em liquidação. O ex-presidente do BNB e outros três ex-diretores e dois ex-superintendentes foram acusados de improbidade administrativa pelo Ministério Público do Ceará, por não terem autorizado a rolagem de dívidas sem quaisquer análises técnicas e por não providenciarem a execução dos valores devidos, causando prejuízos ao banco. Os réus foram condenados a ressarcirem prejuízos financeiros causados à instituição no período de 1997 a 2000 que podem ultrapassar R$ 7 bilhões.