Superintendência do BB no Ceará aterroriza funcionários

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A carta chegou no último dia 24 de julho para anunciar o covarde descomissionamento. Os recém-completos 30 anos como funcionário do Banco do Brasil foram “premiados” com uma prática de gestão desumana e nefasta da Superintendência do banco no Ceará que tem aterrorizado os gerentes gerais das agências de todo o Estado. A ordem é: não cumpriu a meta imposta, perde a comissão, sofre downgrade, rodizia. Para o Sindicato dos Bancários do Ceará, isso não é gestão. O nome é represália.


Dida (nome fictício) ficou encurralado pela notícia da retirada de comissão. A proposta do banco foi gerenciar um PAA ou ir para o posto efetivo. Diante do impasse, para evitar a regressão na carreira e a redução salarial – citando apenas dois aspectos mais concretos –, a escolha menos traumática foi pedir a aposentadoria. “Não me deixaram outra saída a não ser sair do banco”, conta, ressaltando que irá se aposentar apenas pela Previ, já que não tem tempo suficiente para receber o benefício da Previdência Social. “Vou ter de pagar por fora”, completa.


“Eu cheguei à gerência por um processo de ascensão criado pelo banco. Eu fui qualificado, não fui indicado nem pedi favor a ninguém. Se a empresa está com outra visão agora, que jogue o processo na lata do lixo. [O processo] não tem validade nenhuma porque o que vale hoje é o Sinergia. Mesmo dando lucro, se a agência não cumprir a meta durante dois ou três semestres, por conta de uma conjuntura econômica ou qualquer outro motivo que a empresa não vê, já se justifica um descomissionamento”, afirma Dida.


Metas, metas e metas – Sinergia é o programa de metas criado pelo BB que serve de instrumento para avaliar, semestralmente e seguindo vários critérios, o desempenho das agências e para classificá-las como Ouro, Prata ou Bronze. As críticas que recaem sobre o programa dão conta de que a definição das metas é injusta, pois muitas vezes destoa da realidade econômica de algumas localidades, ignorando suas particularidades e limitações. Além disso, o banco costuma mudar subitamente as metas, no meio do semestre, dificultando o planejamento das equipes. É onde nasce o problema.


No momento em que uma agência não alcança o resultado esperado pelo banco, o Ouro, o gerente geral fica sob a mira da arbitrária política de descomissionamento adotada nos últimos meses pela Superintendência no Ceará. Foi o que aconteceu com Dida, que estava há dois anos em uma gerência e por apenas um critério do Sinergia sua agência não conseguiu o Ouro. “É um processo injusto porque você cumpre 99% das metas, mas um item pode lhe tirar o Ouro”.


Dida lembra ainda que, na sua penúltima gerência, a agência foi Ouro durante dois anos. Quando assumiu a última gerência, a agência vinha de um processo de desgaste, com aumento e renovação do quadro de funcionários, e há anos sem nunca ter alcançado avaliação máxima do Sinergia. “Tinha muita coisa a ser feita, tanto na parte de motivação da equipe como de treinamento dos novos funcionários. Esse processo demora, mas apesar de tudo a agência chegou na Prata. E agora, quando a equipe já está bem entrosada, ocorreu esse fato”, conta Dida, revelando que, nesse semestre, o número de agências que estão no Bronze no Ceará é “assustador”.


“O que está havendo é uma falta de ética do banco na relação entre empresa e empregado. Porque o empregado só serve até aquele período. Dali pra frente, ele quer substituir por um empregado mais barato, um mais novo. É a lógica perversa do mercado: o lucro a qualquer preço”, desabafa o ex-gerente.


Segundo o diretor do Sindicato dos Bancários do Ceará, Bosco Mota, o relato de Dida ilustra a angústia e o sofrimento que tem percorrido todo o Estado. De janeiro a julho, dez gerentes gerais foram descomissionados, gerando um clima de tensão e indignação entre os funcionários. “Desde que Eloi Medeiros chegou à Superintendência Estadual, o terror se instalou aqui no Ceará. É maior o número de queixas relacionadas às metas abusivas, ao assédio moral e aos descomissionamentos injustos. Diante disso, o Sindicato não pode se calar”, denuncia o diretor, destacando o atual cenário de escassez no interior do Estado por conta da maior seca dos últimos 40 anos, o que torna impossível alcançar os melhores resultados, já que as vendas dos produtos e serviços ficam ainda mais difíceis.


“Os gerentes estão se aposentando prematuramente por conta de uma gestão temerária. Uma pessoa com 50 anos de idade ainda tem uma carreira pela frente, com experiência e responsabilidade. E quando o banco coloca um funcionário com menos experiência para ser gerente geral, não garante que a agência vai chegar onde o banco quer. A situação é mais decepcionante, porque o funcionário é novo, perde a comissão, perde o salário e não pode se aposentar. Aí, sim, é frustrante”, conclui Bosco, garantindo que o Sindicato continuará levando a questão para a mesa do Superintendente a fim de cobrar soluções.