ENTREVISTA: Política de juros altos prejudica desempenho da economia

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O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), reduziu dia 20/3 a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic), de 11,25% para 10,75% ao ano e anunciou que manterá o ritmo de cortes nos próximos encontros. Entretanto, mesmo tendo chegado ao menor nível em dois anos, o índice ainda é alto e trava a nossa economia. Diante do quadro, movimentos sociais, incluindo o movimento sindical, realizam desde o início de 2023 manifestações e campanhas com a hashtag #JurosBaixosJá.

Quem explica melhor essa situação e o que isso representa para a economia brasileira é o supervisor técnico do Dieese/CE, Reginaldo de Aguiar Silva. Confira:

Tribuna Bancária – Quais os benefícios dessa tendência de queda dos juros para a economia brasileira e para as políticas públicas de governo?

Reginaldo Aguiar – Existe uma relação inversa entre investimento e taxa de juros, ou seja, quanto mais elevada for a taxa de juros, menor é o nível de investimento. O outro problema é que a medida em que a taxa de juros se eleva, a dívida pública que o governo tem também se eleva. E isso aumenta o déficit público, desbalanceia as contas públicas. A grande vantagem quando você tem uma queda na taxa de juros é porque tanto você sai desse campo especulativo e os capitais que estão vivendo de juros vão poder migrar ou tenderão a migrar para o setor produtivo. Aí você vai ter mais investimento, você pode investir em lojas, em fábricas, restaurantes, estradas. As contas públicas não vão ser oneradas por esse juro alto, isso tem um efeito dinâmico de aumentar emprego e aumentar a renda e então você tem todo um círculo virtuoso à medida que essas taxas de juros caem em qualquer economia.

 

TB – Qual a relação entre a política de juros do Banco Central e a inflação?

A questão da política de juros altos do Banco Central tem uma série de componentes importantes: primeiro que o Brasil tem uma das maiores taxas de juros do mundo. Você vê que a taxa de juro tem caído ao longo do tempo, agora no governo Lula, e mesmo assim ainda está em patamares extremamente inviáveis para o setor produtivo. Isso faz com que qualquer pessoa, com a taxa de juros real que se tem muito alta, qualquer capital que fosse para o setor produtivo, acaba preferindo ficar com a rentabilidade significativa no mercado financeiro e não vai aplicar esse recurso em produção. Então, você tem um componente de rentismo de capitais, que estão viciados em crescer sem produzir, e isso traz um dano para economia brasileira bastante significativo. Com essas taxas de juros muito altas, se você vai financiar uma bicicleta, um carro, uma casa, você contraiu financiamento, você acaba comprometendo demais a renda dos trabalhadores por um tempo absurdo e deixam ou diminuem o consumo, exatamente porque a taxa de juros é alta demais. E aí você tem todo um efeito deletério sobre a economia brasileira.

 

TB – O que uma política de juros baixos pode trazer de benefícios concretos para a população?

Juros baixos significa que, o capital tem sua lógica, ele quer crescer a qualquer momento e preferencialmente nas maiores taxas possível. É a lógica dele. Quando você tem uma política de juro baixo, isso faz com que as pessoas em busca de aumentar esses capitais, elas vendo que a taxa de rendimento é muito baixa no mercado financeiro, elas tendem a jogar esse dinheiro para não ficar parado em atividades produtivas: abre loja, abre restaurante, abre pousada, abre fábrica. Cria-se oportunidades e à medida que você vai fazendo esses investimentos, você vai procurando o setor produtivo para investir, vai também na outra ponta aumentando a arrecadação de impostos, aumentando o número de empregos. Pessoas trabalhando consumem mais e isso gera mais demanda, gerando mais demanda, os detentores de capitais tendem a fazer mais investimento e você tem todo um círculo virtuoso que é mais ou menos o que se está tentando fazer no Brasil agora em 2024.

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